sábado, 16 de março de 2019

Barómetro DECO PROTESTE: 300 mil famílias portuguesas vivem na pobreza


«Mais de três quartos das famílias portuguesas veem-se aflitas para pagar as contas. Pior: 7%, ou seja, 300 mil famílias enfrentam a pobreza real. Casa, saúde e alimentação asfixiam o orçamento. É o que revela o primeiro Barómetro DECO PROTESTE

por Sílvia Nogal Dias e Filipa Rendo

Um dia de cada vez: é assim a vida de 77% das famílias portuguesas, para quem as dificuldades económicas fazem parte do quotidiano. O número impressiona. Mas o cenário é mais pessimista: 7%, ou seja, cerca de 300 mil famílias, vivem em situação de pobreza. A conclusão é do primeiro Barómetro DECO PROTESTE, que avaliou o nível de vida com base na facilidade que estas têm ou não em fazer face a seis grandes conjuntos de despesas: habitação, saúde, alimentação, educação, mobilidade e tempos livres.

Do total de 1998 respostas, tratadas estatisticamente para fazer um retrato da realidade nacional, apenas 23% dos inquiridos admitem viver com conforto. Este exercício estendeu-se a outros países europeus, onde a percentagem de agregados com dificuldades também é elevada (61%, na Bélgica e 75%, em Itália e Espanha). Portugal fica pior na fotografia.

Muitas contas à vida

Na qualidade de vida, para a generalidade dos portugueses, a habitação, a saúde e a alimentação são as áreas que ocupam os lugares cimeiros. Mas fazer face a estas despesas é motivo de insónias para uma grande percentagem de famílias (46%, 45% e 32%, respetivamente).

Desdobrámos estas rubricas em vários itens, o que permitiu identificar as despesas que mais fazem tremer a estabilidade dos portugueses: na 
habitação, a manutenção é um encargo que 55% têm dificuldade em pagar e, para quase 50%, as contas da luz, da água e do gás também são fonte de preocupação.

Na 
saúde, os constrangimentos atingem 45% das famílias. As idas ao dentista são sacrificadas: 59% das famílias têm bastantes dificuldades em suportar os encargos com a saúde oralDespesas com óculos e aparelhos auditivos não ficam atrás: fazer face a esta despesa é exercício de contorcionismo para a maioria (59 por cento).

Os números são menos expressivos na 
alimentação, mas preocupantes: a maioria afirma não ter dificuldades em pôr comida na mesa, mas quase um terço das famílias têm de fazer restrições.

Na 
mobilidade, 47% dos inquiridos enfrentam dificuldades e isso deve-se aos encargos com o automóvel, uma limitação para uma elevada percentagem (68 por cento). Já no que diz respeito às despesas com transportes públicos, as dificuldades afetam um quarto dos agregados. Para 32% das famílias, está longe de ser fácil arcar com as despesas de educação, sobretudo do ensino superior. A maioria das famílias não tem grande margem para gastos além das despesas correntes. Para 47%, lazer e cultura são luxos difíceis de financiar. Para dois terços, fazer férias fora de casa é uma miragem. E até as escapadinhas de fim de semana ficam fora do radar de 60% das famílias.

Índice na primeira pessoa

A partir do retrato feito pelas famílias sobre a sua capacidade para fazerem face a este conjunto de despesas, criámos um índice que reflete o grau de sustentabilidade financeira. Esta foi aferida ao nível nacional e regional, de acordo com três níveis: pobreza, dificuldades económicas e conforto.

Sustentabilidade financeira dos portugueses

O Barómetro DECO PROTESTE permitiu também identificar segmentos da população mais vulneráveis. Os agregados com algum dos membros em situação de desemprego enfrentam dificuldades acima da média (11 por cento). Mas nas famílias monoparentais os níveis de pobreza atingem valores brutais: 32% por cento.»

deco.proteste

sexta-feira, 8 de março de 2019

8 de Março, Dia Internacional da Mulher Trabalhadora


«A Estação Primeira de Mangueira conquistou, nesta quarta-feira (6), o vigésimo título de sua história no carnaval do Rio de Janeiro. Fundada em abril de 1928, no Morro da Mangueira, próximo à região do Maracanã, a escola levou à Sapucaí o samba-enredo “História pra ninar gente grande” na última segunda-feira (4). A ideia era contar a trajetória de heróis negros e índios esquecidos dos livros e não mencionados na história oficial do Brasil.

O enredo foi assinado pelo carnavalesco Leandro Vieira e contado em 24 alas e cinco alegorias. Na primeira entrevista depois da vitória, Vieira mandou um recado a Jair Bolsonaro (PSL), que tentou desqualificar o carnaval 2019 com um vídeo publicado no Twitter na última terça-feira (5): “Essa vitória é um recado para o presidente. Carnaval não é o que ele acha que é. Carnaval é isso aqui, é a festa do povo, da cultura”.

Com 3,5 mil integrantes, a escola apresentou heróis como o guerreiro Sepé Tiaraju, que tentou evitar o massacre dos guaranis pelas tropas portuguesas e espanholas. A Mangueira também homenageou a trajetória de líderes como Luis Gama, advogado abolicionista, Luisa Mahin, ativista participante da revolta dos Malês, e Dandara, líder quilombola esposa de Zumbi dos Palmares, além de tratar de temas como as revoltas indígenas.

Ao longo do desfile, os carros trouxeram frases como “Ditadura Assassina”, mostraram ex-presidentes como Floriano Peixoto pisando em cadáveres e apresentaram os bandeirantes como gananciosos que mataram e escravizaram índios em busca de ouro (em vez da imagem de desbravadores que consta nos livros escolares).

Em seguida, a Mangueira lembrou a vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada há cerca de um ano, cujas investigações seguem sem solução. Além de citar o nome dela no samba, uma das últimas alas trouxe diversas bandeiras com o rosto da vereadora em verde e rosa. A arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle, esteve presente na passarela, usando uma camiseta com os dizeres “Lute como Marielle”. O deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) e o vereador Tarcísio Motta (PSOL) também participaram do desfile.

Um dos destaques da escola foi a bateria que levantou o público ao utilizar instrumentos característicos de religiões de matriz africana. A ação foi pensada não apenas pela sonoridade, mas para explicitar, mais uma vez, o tom político e social do desfile de 2019, buscando valorizar a cultura afro e criticar o preconceito contra as religiões afrodescendentes.

Viradouro, Vila Isabel, Portela, Salgueiro e Mocidade se unem à Mangueira no próximo sábado (9) para o Desfile das Campeãs. As escolas Imperatriz Leopoldinense e Império Serrano foram rebaixadas e tentarão retornar ao grupo especial no ano que vem.

Carta aberta a António Costa


Santana Castilho*
«Senhor Primeiro-ministro:

Uma carta aberta é um recurso retórico. Uso-o para lhe dizer o que a verdade reclama. Errará se tomar esta carta por mais uma reivindicação de grémio. Não invoco qualquer argumento de autoridade por pertencer a uma classe a quem deve parte do que sabe. Escrevo-a do meu posto de observação da vida angustiada de milhares de professores, que o Senhor despreza. Com efeito, cada vez que o Senhor afirma que os professores são intransigentes, está antes a falar de si e do seu governo. Como pequeno manipulador que é, falta-lhe a humildade e a honestidade para reconhecer que falhou no relacionamento com os professores e recorre a uma narrativa que não resiste à confrontação com os factos. Façamo-la.

(...)
O Senhor mente quando fala de 600 milhões. Nunca apresentou as suas contas. Os professores deixaram as contas certas na AR. Nem de metade se pode falar!

O problema não está, nem nunca esteve, no dinheiro. Está, como sempre esteve, nas mentiras e nas escolhas políticas do seu governo. Está na manipulação dos números, no abocanhar oculto de receitas injustas e nas cativações. Está nas diferenças entre os orçamentos de fachada que a “geringonça” aprovou e os orçamentos de austeridade desumana que Ronaldo Centeno executou. Numa palavra, causa-me náusea ouvi-lo dizer que não tem dinheiro para pagar o que deve aos professores, depois de ter aprovado cinco mil milhões para sustentar bancos parasitas. 

O tom que usou para falar de enfermeiros e professores, que não se portam como eunucos de outros tempos, foi demasiado vulgar e não serviu a cultura cívica minimamente decente que se deseja para o país. Não se sentiu incomodado por uma ministra do seu Governo homologar um parecer onde se diz que uma greve que não afecte mais os trabalhadores do que o patrão é ilegal? Ficou tranquilo quando o seu Governo protegeu os fura-greves dos estivadores de Setúbal? Não veria a democracia em risco se pertencessem a outro governo, que não o seu, estas acometidas contra a liberdade sindical? Numa palavra, a sua arrogância tornou-se insuportável.

Não posso concluir sem uma referência ao conforto que o Presidente da República lhe veio dar, quando perguntou: “é preferível zero ou alguma recuperação?” É estranho que um professor, para mais do cimo da mais alta cátedra da nação, pareça sugerir a outros professores que troquem a ética pela pragmática. Como se ser justo fosse equivalente a ser oportunista ou ser esperto. Fora eu o interpelado, que no caso felizmente não sou, e respondia-lhe: zero! Por dignidade mínima. Porque se a lei pudesse ser substituída pela pragmática, aqui e além, a vida moral virava simples hipocrisia. Porque o modelo de actuação de um professor não é o modelo de actuação do homo economicus, que facilmente troca a fiabilidade do seu carácter por qualquer ganho imediato. Para não aviltar quantos lutam pela justiça e são solidários com os colegas humilhados.

Termino assumindo que, para além do que lhe acabo de dizer, tenho uma posição ideológica clara: sou visceralmente contra as pedagogias propaladas por meninos crescidos, glosando como se fossem coisa nova temas como flexibilidade, autonomia e inclusão, que colocaram no fim da lista os conhecimentos essenciais à compreensão do nosso mundo e à formação de cidadãos inteiros. 

terça-feira, 5 de março de 2019

Marcha Branca Nacional Pela ENFERMAGEM


O Movimento Nacional de Enfermeiros está a organizar uma Marcha Branca Nacional pela ENFERMAGEM no dia 8 de Março 2019 pelas 15h em Lisboa.
No Séc. XIX, Florence Nightingale, mulher brilhante e impetuosa mudou o paradigma de Enfermagem demonstrando a importância dos enfermeiros na saúde e mudando a visão da população sobre o trabalho que estes faziam.
Também hoje, em pleno séc. XXI, os enfermeiros portugueses se encontram num momento decisivo da profissão tentando demonstrar à sociedade a importância da sua actuação como classe profissional basilar do SNS.
Os enfermeiros portugueses continuam focados no que é importante: demonstrar o verdadeiro papel do Enfermeiro como agente fulcral na persecução de qualidade de cuidados de saúde para todos, defensores acérrimos do SNS e da sua necessidade absoluta.
Pretendemos no próximo dia 8 de Março, Dia da Mulher, homenagear uma das figuras centrais da Enfermagem FLORENCE NIGHTINGALE e, de igual forma, todos os ENFERMEIROS que diariamente sacrificam o seu bem-estar em prol de uma Saúde digna para milhares de pessoas.
Queremos que TODOS os enfermeiros do país possam estar presentes para prestar a sua homenagem.
Convidamos também os nossos familiares e amigos que nos apoiam incondicionalmente todos os dias a estarem presentes!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Erros médicos matam mais em Portugal do que acidentes de viação


«Mas ganhar um processo em tribunal é quase uma missão impossível. Perícias são prova fundamental, mas são normalmente favoráveis aos clínicos

Andreia Jorge Luís

Todos os anos morrem entre 1300 a 2900 pessoas, em Portugal, na sequência de erros médicos, muito mais que de acidentes de viação.

Avançar para tribunal para um processo por negligência médica é uma missão quase impossível e há leis diferentes para o público e para o privado.

Um processo num Tribunal Administrativo pode arrastar-se vinte anos até haver uma sentença final e as vítimas de negligência médica partem em desvantagem: queixam-se de corporativismo da classe médica, uma espécie de pacto de silêncio dos médicos que se encobrem uns aos outros.

As perícias, prova fundamental nestes processos, são normalmente  favoráveis aos clínicos  porque poucos médicos estão dispostos a apontar o dedo aos colegas.

Dos 540 processos abertos pelo ministério público em 2017 e 2018, apenas trinta acabaram com uma acusação. Todos os outros foram arquivados.

Estes processos são complexos e obrigam a conhecimentos médicos que o doente não tem  e o ministério público, que é quem investiga, também não. Sem provas periciais e sem testemunhos da classe médica, os doentes ficam entregues a si próprios e a culpa acaba por morrer solteira.

São os próprios médicos que avaliam os colegas e há casos em que clínicos condenados pela ordem continuam a fazer parte da direcção do colégio da especialidade a que pertencem: quer isto dizer que continuam a assinar pareceres noutros processos de negligência médica mesmo depois de condenados a penas de suspensão.

Quem faz frente aos médicos? Como provar a negligência médica em tribunal?

São muitas as vítimas que se queixam de negligência. (…)

Cláudio perdeu a mulher nove dias depois de ter dado à luz a segunda filha. Francisca nunca vai conhecer a mãe. Dulce tinha uma bebé com mais de quatro quilos, mas os médicos decidiram fazer parto normal.

Paula tinha 36 anos quando foi fazer uma operação para retirar a vesícula. Os médicos nem chegaram a operar. Entrou em paragem cardiorrespiratória e ficou em estado vegetativo. Os danos são irreversíveis.

Susana venceu o cancro, mas depois dos tratamentos ficou sem parte da mama direita. Para reconstruir, os médicos propuseram uma mastectomia total, ou seja, a retirada das duas mamas. Susana não aceitou, mas quando acordou da operação, os clínicos tinham retirado as duas.

Por fim, Alexandra foi mãe pela primeira vez há 21 anos. Mariana nasceu com uma paralisia cerebral nível 3. Processou o hospital por negligência médica. Conseguiu uma condenação, mas está há mais de sete anos à espera da indemnização.

As vítimas sentem-se impotentes e muitas vezes desistem dos processos. A luta é inglória, desigual e a justiça, quando chega, chega tarde demais.»


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Um Governo à beira de um ataque de nervos (greve dos enfermeiros)

por António Garcia Pereira


«Os últimos acontecimentos verificados a propósito da greve dos enfermeiros, da requisição civil decretada pelo Governo e da gigantesca campanha de manipulação levada a cabo pela sua “tropa de elite” de comentadores e opinantes, não devem permitir que deixemos de ver o que é essencial e, sobretudo, que deixemos de reflectir sobre aquilo que está aqui verdadeiramente em causa.
Creio, assim, que se impõe revisitar, ainda que de forma um pouco extensa, uma série de pontos, relevantes e reais, que são precisamente aqueles que o Governo do Sr. Costa e os seus apoiantes precisamente não querem que se discutam e aclarem aos gritos demagógicos de “eu sou pela vida!”, de “não admito greves que ponham em causa a vida e a saúde dos doentes!” e de “eles (os enfermeiros) estão ao serviço de interesses inconfessáveis e querem é destruir o Serviço Nacional de Saúde!”.

1) Reivindicações
Os enfermeiros são uma classe profissional profundamente preocupada, dedicada e empenhada nos cuidados de saúde dos pacientes a seu cargo. E as suas reivindicações são essencialmente quatro, e todas elas inteiramente justas”:
  1. Equiparação de vencimento aos outros técnicos superiores da saúde com habilitações literárias idênticas, como os farmacêuticos, os psicólogos e os nutricionistas (os quais têm vencimentos iniciais de 1.600€ mensais, enquanto os enfermeiros, mesmo que com mestrado ou até doutoramento, têm 1.200€);
  2. a recuperação da carreira (em termos de categorias) destruída há cerca de 10 anos por outra Ministra da Saúde (Ana Jorge) de um outro governo do PS, com o reconhecimento quer de 3 categorias, correspondentes aos diferentes níveis de responsabilidade, quer, também, da respectiva remuneração. O Governo diz que está a fazer isso, mas a verdade é que a grelha que quer aprovar, em termos salariais, representa 0 de valorização salarial já que a diferença entre um enfermeiro e um enfermeiro especialista será de 150,00€, que é exactamente aquilo que desde 2018 e por força da luta, em 2017, dos enfermeiros especialistas, já é pago a estes a título de “suplemento”;
  3. uma carreira justa também em termos de evolução de imediato e de futuro, já que, com a proposta do Governo, os enfermeiros – que, relembre-se, hoje estão praticamente todos (mais de 90%) na base da carreira, recebendo 1.201,48€ brutos mensais, tenham eles 1, 5, 10 ou mais de 20 anos de profissão! – terão 11 níveis de evolução, levando em média 10 anos para subir de nível (o que significa um século para atingir o topo da carreira!?);
  4. a idade da reforma aos 57 anos, devido à elevada carga física com procedimentos técnicos e físicos muito exigentes, à movimentação de pesos muitas vezes superiores ao próprio peso, ao risco de contaminação, à penosidade resultante do excesso de carga de trabalho (há muitos serviços que só funcionam com os enfermeiros a prestarem regularmente horas extraordinárias em cima das horas normais), dos turnos, e da impossibilidade prática de os enfermeiros mais velhos serem dispensados dos turnos e do trabalho nocturno, e enfim à dureza psicológica decorrente do contacto permanente com a dor, o sofrimento e até a morte dos pacientes a seu cargo.
2) No tempo do Passos Coelho os enfermeiros estavam calados?
As reivindicações antes referidas – ao contrário do que se tem ouvido dizer – são um “ponto de partida” negocial e já são antigas, tendo sido sucessivamente apresentadas aos diversos governos, e designadamente ao de Coelho/Portas. Mas foram assumindo cada vez mais premência quer com o agravamento progressivo das condições de trabalho dos enfermeiros nos últimos anos, quer com a sistemática postura dos diversos ministros da Saúde, em particular os últimos (Paulo Macedo, Adalberto Campos Fernandes e Marta Temido), consistente em fazerem contínuas e públicas declarações de “disponibilidade para o diálogo”, mas depois, e na prática, se recusarem a negociar de forma séria o que quer que fosse. O saco dos enfermeiros foi assim enchendo e enchendo até que, como era inevitável, um dia transbordou de vez. E foi o que agora aconteceu.
Mas se a dignidade e as condições mínimas adequadas ao exercício da profissão de enfermeiro foram assim sendo sucessivamente degradadas ao longo dos últimos 10/15 anos, a verdade é que essa degradação se acentuou de forma muito particular a partir de 2017.
É que Portugal é, segundo os dados da própria OCDE, o país com menor número de enfermeiros por 100.000 habitantes (4,2), quando a média geral é de 9,2. Há, como já referido, inúmeros serviços que apenas conseguem funcionar com um esforço sobre-humano dos enfermeiros, trabalhando as horas dos seus turnos mais uma coisa inconcebível que são as chamadas “horas extraordinárias programadas” (ou seja, horas extra, não para fazer face a situações excepcionais, mas sim como meio “normal” de suprir necessidades, violando assim o próprio conceito legal de horas extraordinárias).
Ora, face a esta situação, o Governo de Costa tem, de forma manipulatória, anunciado que tem contratado mais enfermeiros, mas sem que isso represente afinal mais enfermeiros ao serviço. Como é tal possível? É, infelizmente, bem simples. Por exemplo, até 2017 um determinado serviço funcionava com 15 enfermeiros, sendo 10 dos quadros (e cujos salários constam assim das “remunerações de pessoal”) e 5 contratados através de empresas prestadoras de serviços (e cujos valores entravam pela rubrica, não de salários, mas de “serviços” do Hospital). Com a declaração da inconveniência ou até da ilicitude deste tipo de contratação, esses enfermeiros foram mandados embora, e o Governo contratou então para os quadros (apenas) mais 2. E, assim, a Ministra da Saúde pôde, mais uma vez, intoxicar a opinião pública proclamando que até aumentou em 20% (de 10 para 12) o número de enfermeiros daquele serviço, quando na realidade eles diminuíram de 15 para 12!

3) O “perigo” dos novos sindicatos
A chamada “greve cirúrgica” decretada pelas 2 associações sindicais, o Sindepor e a ASPE, é uma greve que perturba profundamente o Poder. E não só o Governo como também os Sindicatos tradicionais, desde logo porque, não tendo aqueles sindicatos elos de ligação político-partidária, as formas de controle habitualmente usadas pelos partidos da área do Poder (como, por exemplo, o telefonemazinho para o dirigente do sindicato ou da confederação sindical para que trate de acalmar as respectivas bases…) aqui não funcionam. E os novos sindicatos, que já não se satisfazem com uns protestos simbólicos à porta do Ministério ou com umas formas de luta totalmente inócuas (como os abaixo-assinados, as cartas abertas ou até as greves às sextas-feiras de tarde), são perigosos, quer para o Governo, quer para os sindicatos tradicionais, que assim veem as lutas e os trabalhadores nelas empenhados escaparem ao seu controle. E, desesperados, não raras vezes se juntam até à entidade empregadora para atacar e discriminar os outros sindicatos. Não nos esqueçamos de que já vimos este “filme” nas recentes lutas dos professores e dos estivadores (como sucedeu com o STOP e o SEAL a serem atacados e até, no primeiro caso, excluídos das negociações, quer por patrões quer por outras associações sindicais!).
É este autêntico pavor por a luta dos enfermeiros ter escapado ao controle dos ditos sindicatos “tradicionais” que leva não só o Governo do Sr. António Costa ao desespero e ao frenesim no ataque a essa mesma luta, como à complacência, senão à cumplicidade, com esses ataques, e inclusive com a própria requisição civil, por parte dos mesmos sindicatos “tradicionais”.

4) Porque não cede o Governo?
António Costa e o seu Governo são bem sabedores de que têm inúmeros outros trabalhadores a atingirem o ponto de saturação quanto ao espezinhamento dos seus direitos e às contínuas falinhas mansas do diálogo sem qualquer conteúdo real e concreto. Desde os próprios médicos e outros trabalhadores da Saúde até aos diversos profissionais do sector da Justiça, da Administração Interna, das Finanças, etc., para já não falar dos trabalhadores do sector laboral privado que constatam que o Governo não quer mexer uma palha nas mais gravosas medidas da Tróica, como a da facilitação e drástico embaratecimento da contratação precária e dos despedimentos colectivos, por extinção do posto de trabalho e por inadaptação, bem como a da caducidade da contratação colectiva.
E, por isso mesmo, Costa quer a todo o custo destruir esta greve, seja de que forma for, para passar a mensagem aos outros trabalhadores de que “quem se mete com o Governo PS, leva!” (lembram-se desta frase de Jorge Coelho?) e de que nem pensem em fazer greves e/ou recorrer a formas de financiamento colaborativo como forma de combater a arma anti-greve favorita dos patrões que é a asfixia financeira).
O empenho difamatório, persecutório e ameaçador das actuações do Sr. António Costa e do seu governo têm aí a sua razão principal. E todos os trabalhadores do país devem ver hoje nos enfermeiros aquilo que o Governo lhes reserva para amanhã, quando se fartarem em definitivo das tais “falinhas mansas” sem conteúdo e das lutas “folclóricas” e se dispuserem a combater a sério. 
(...)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Apoio e solidariedade para com o Enfermeiro Carlos Ramalho

«Fazemos esta vigília, em primeiro lugar pelo SNS que se encontra gravemente suborçamentado.
Em segundo lugar pela segurança dos doentes que é diretamente afetada pelo ponto anterior.
Factos que nos indignam e que justificam as nossas reivindicações:
1- descongelamento real das carreiras independentemente do vínculo contratual e sem apagão de anos de serviço.
2- Outras carreiras da saúde com o mesmo peso curricular (240 ECTs) auferem 1600 euros no primeiro escalão e os enfermeiros não
3- Desde a alteração da carreira em 2009 que aniquilou a categoria de especialista que todos os enfermeiros permanecem na primeira categoria não existindo nenhum enfermeiro principal em Portugal.
4- Trabalhamos muito mais do que as 35 horas semanais contratualizadas
5- Não existe compensação pela penosidade da profissão nomeadamente pelo trabalho rotativo de turnos.
6- Um enfermeiro não pode reformar-se aos 66 anos de idade devido à carga física, psicológica e emocional que sofre no seu dia a dia.
Concluímos com pesar que nos encontramos pior como classe profissional agora (apesar de o governo afirmar perante a opinião pública que já cedeu em grande medida) do que em 2003. Nessa altura tínhamos uma carreira especial com 5 categorias, incluindo a de especialista (cujo reconhecimento actual o governo afirma ser a sua maior cedência!!!) com melhores índices remuneratórios e com progressões na carreira reais e aplicadas a todos os enfermeiros, ao contrário do que se passa com os descongelamentos actuais como já abordamos.
Estamos portanto em luta por um SNS com futuro, que sirva melhor os seus utentes e por uma carreira digna de Enfermagem que honre o pilar que somos, o pilar do SNS como António Costa em tempos disse.
Pretendemos demonstrar ainda o nosso apoio e solidariedade para com o Enf Carlos Ramalho que iniciou uma Greve de Fome com o objectivo de reatar as negociações com o governo.
Nesse sentido estão programadas vigílias a nível nacional que irão decorrer no Sábado à noite pelas 19:30. LOCAIS ESPECÍFICOS BREVEMENTE.
Vamos estar presentes, demonstrar o nosso apoio e UNIÃO tão necessária nestes e em todos os momentos.
Pela ENFERMAGEM nós não desistimos!
Juntos Somos Mais Fortes
O MnEnf