terça-feira, 26 de julho de 2016

ERS aponta falhas ao Hospital de S. José no caso do jovem David Duarte

 

Caso 2: Falhou o direito ao acesso e cuidados de saúde de qualidade

(ou como com o desinvestimento no SNS passou a haver piores acessos e cuidados de saúde para os trabalhadores e o povo português.)

 «Uma deliberação da Entidade Reguladora de Saúde (ERS), publicada esta quinta-feira, refere que o jovem David Duarte que morreu no Hospital de S. José, em dezembro passado, vítima de um aneurisma roto, não viu acautelado «o seu direito de acesso de universal e equitativo ao serviço público de saúde, bem como o seu direito à prestação de cuidados de saúde de qualidade».

A ERS identificou «falhas no acesso e na qualidade dos cuidados prestados» a este jovem, transferido do Hospital de Santarém para o serviço de Urgência do Hospital de São José, Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), a 11 de dezembro do ano passado, numa sexta-feira, e que acabou por não ter acesso à cirurgia durante o fim de semana por falta de equipas para o fazer.

Entre as falhas identificadas está o facto do CHLC não possuir «capacidade para a prestação de cuidados de saúde específicos, nomeadamente, realização de cirurgia em situação de rotura de aneurisma cerebral por falta de recursos humanos especializados, essenciais à sua realização».

Mas também porque esta unidade de saúde, «considerando que o utente demonstrava já sinais de agravamento clínico», não procurou «uma alternativa efetiva de acesso para o utente, seja através de convocação da equipa necessária para a realização da cirurgia» ou «através de transferência do utente para outra unidade hospitalar».

O hospital poderia ainda ter adotado «uma intervenção de tipo life saving», acrescenta a reguladora.»

Original aqui Tempo Medicina

Auditoria de resultados ao Serviço de Urgência do Centro Hospitalar do Algarve, EPE

                                          imagem in blog "77colinas"

Resultado lógico da destruição do SNS para criar mercado para os lóbis do negócio da saúde privada, que só consegue subsistir se for anulada a concorrência do SNS, na sua máxima expressão deverá ser universal, geral e gratuito, e beneficiar dos apoios financeiros, directos ou indirectos, ou seja, PPP's ou ADSE's e outras convenções, por parte do estado. Em conclusão: piores acessos e cuidados de saúde para o povo português. Por outro lado, mais lucros para os privados à custa dos dinheiros públicos; a "poupança" é somente aparente.

*

Caso 1: Auditoria realizada pelo Tribunal de Contas:

«Articulada à luz do exame à resposta dada a um caso mortal de AVC, a auditoria realizada identificou falhas de organização e de procedimento na assistência ao doente que implicaram perdas de tempo de cerca de 15 horas relevando em especial:

O não registo, pelo INEM, de queixas relevantes apresentadas pelo doente, aquando da chamada de emergência [112], que pode ter implicado um atraso no atendimento em cerca de 6 horas. O registo completo da informação poderia ter resultado no seu encaminhamento direto para o Serviço de Urgência de Faro.

A não disponibilização atempada, pelo Centro Hospitalar, de transporte entre as urgências de V. Real de Sto. António e Faro, induzindo o doente a deslocar-se por meios próprios.

Tempos de espera excessivos na urgência de Faro: na triagem (25m); na observação clínica (01h30m); na realização de meios complementares de diagnóstico (03h30m).

Incumprimento dos procedimentos de acionamento da VIA VERDE AVC, que implicaram que o doente tenha sido observado com um atraso de 5 horas nesta unidade, após a triagem.

Incumprimento da rede de referenciação e demora na determinação do hospital de destino. Entre a decisão de transferir o doente e a escolha do hospital de destino, passou cerca de 01h00m.

Incapacidade de pronta mobilização de meios para o transporte do doente para o hospital escolhido, o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, EPE, por desarticulação com o INEM e com as empresas de transporte de doentes em outsourcing. Este processo demorou cerca de 04h00m.»

Texto completo em  Tribunal de Contas

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Os truques de uma imprensa pouco séria


in Os truques

O principal destaque da capa de hoje do Jornal de Notícias é um grande truque.

Ao longo do dia recebemos contactos de vários profissionais de saúde, desde médicos a enfermeiros especialistas em saúde pública, e o que se conclui é o seguinte: o medicamento a que o JN se refere (Truvada) não é utilizado para sexo sem proteção; o medicamento é a proteção. A notícia do JN é falsa sob o ponto de vista científico e sensacionalista e desonesta sob o ponto de vista jornalístico.

Encontram aqui uma explicação detalhada de um médico neurologista e intensivista, entretanto dirigida à direção do JN:

"Resposta À notícia de hoje do JN:

Lisboa, 14 de Julho de 2016

Ao cuidado da secção "Sociedade" do Jornal de Notícias, da "jornalista" Emília Monteiro e do director-executivo do Jornal de Notícias Domingos de Andrade:

O meu nome é Bruno Maia, sou médico, tenho 34 anos e estou actualmente a fazer Profilaxia Pré-exposição (PrEP) para o VIH. Sou médico no CheckpointLX, uma clínica comunitária em Lisboa do GAT (Grupo de activistas em tratamentos VIH/SIDA), onde faço prevenção e tratamento de infecções de transmissão sexual dirigidos a homens que têm sexo com homens (HSH). Escrevo esta carta no seguimento da notícia publicada hoje, a 14 de Julho de 2016, no vosso jornal e com chamada para a 1ª página, com o título "Medicamento usado para sexo sem proteção". A notícia dificilmente poderia ter mais equívocos do que aqueles que apresenta. Não me vou referir à forma como é apresentada ou ao tipo de linguagem escolhida, vou unicamente demonstrar as várias informações falsas que ela veicula e, perdoem-me que o diga, são muitas, pelo que será difícil ser sucinto:

1. Existem hoje duas estratégias de profilaxia / prevenção do VIH que têm nome: a profilaxia pós-exposição (PPE) que consiste na administração de um conjunto de antirretrovirais (não só o Truvada) durante um período de 28 dias a quem teve um comportamento sexual de alto risco para a infecção pelo VIH está disponível há muitos anos em Portugal, é distribuída nos hospitais Portugueses; a outra é a profilaxia pré-exposição (PrEP) que consiste na toma regular ou intermitente de apenas um antirretroviral (o Truvada ou genérico, onde ele estiver disponível) por pessoas que estejam em elevado risco de infecção pelo VIH funciona "antes" dos comportamentos de risco e não após. A PrEP ainda não está disponível em Portugal mas já existe nos EUA há 5 anos, em França há meio ano e também na Suíça, Canadá, Israel, África do Sul, Perú e Quénia. Existem ainda programas de distribuição de PrEP a começar na Holanda, Bélgica, Austrália, Brasil e está actualmente a ser discutido em Portugal entre a DGS, o Governo e o GAT. Espero que compreendam como os adjectivos "abusivo" e "pílula do dia seguinte" não se enquadram neste contexto. E espero também que compreendam como o vosso artigo confunde as duas estratégias preventivas tão diferentes entre si.

2. O medicamento não é usado para sexo sem protecção. O medicamento é a protecção. O vosso título bem poderia ser: "Preservativo é usado para sexo sem protecção". Já vêem que não faz sentido. A PrEP é uma estratégia cientificamente demonstrada que consegue prevenir a infecção pelo VIH em praticamente 100% dos casos, muito superior ao preservativo. Não existe neste momento qualquer dúvida na comunicada médica internacional sobre a eficácia da PrEP. A cidade de S. Francisco que implementou a PrEP há 5 anos já reportou os resultados: 0 novas infecções entre os utilizadores de PrEP. Foram publicados mais de uma dezena de estudos científicos multicêntricos, internacionais (abrangendo os 5 continentes) com milhares de pessoas que não deixam margem para dúvidas sobre a potência preventiva da PrEP. Posso, obviamente fornecer-vos toda a documentação e literatura sobre o assunto se o desejarem, embora avise desde já que ela é muito extensa. Portanto afirmações como "…não é certo que o antivírico impeça o contágio de doenças como o VIH.." não podem estar mais longe da realidade.

3. O Truvada não tem "muitas contra-indicações". Mais uma afirmação que não tem qualquer sentido. O Truvada é o antirretroviral mais utilizado em todo o mundo precisamente porque tem pouquíssimas contra-indicações e pouquíssimos efeitos secundários. O seu perfil de segurança é o que o torna tão conhecido e utilizado. Mais uma vez existe uma extensíssima literatura que o comprova e que poderei facilitar.

4. O aumento do consumo do Truvada registado pelo Infarmed não tem nada a ver com a PrEP, uma vez que ela não existe em Portugal. Como o Truvada só é dispensado a nível hospitalar, esse aumento do consumo não tem nada que ver com o consumo para a profilaxia pré-exposição. Estamos sim a ver crescer o número de novos infectados que precisam de ser tratados com este medicamento. Também neste sentido os médicos não podem "…receitar medicamentos de acordo com a sua consciência…" ou receitar "…em casos raros, de risco continuado…" Estas situações não são possíveis, os médicos só podem prescrever Truvada em contexto hospitalar a pessoas que já estão infectadas ou nos casos de PPE. Estamos a falar de fármacos que só existem nas farmácias dos hospitais e cuja dispensa é muito bem justificada.

5. O artigo termina com: "O objectivo é restringir o uso de medicamentos…". Como assim? Restringir o uso de medicamentos a pessoas infectadas que precisam deles? Restringir o uso de medicamentos a pessoas que tiveram uma relação de risco e que, se não os fizerem durante um mês (PPE), vão ter de os fazer para o resto da vida porque se infectaram? Restringir a PrEP quando ela não existe, nem aqui nem em Espanha?

6. Em Portugal existe um grupo de pessoas que, não tendo acesso a PrEP no SNS, decidiram comprar o genérico do Truvada na internet. Eu dou a cara por esse grupo. Sendo médico, trabalhando na área do VIH e da prevenção e fazendo parte de um grupo em risco de infecção pelo VIH (homens que têm sexo com homens), decidi falar publicamente sobre a PrEP. Já dei uma entrevista à RTP, ao Público, já escrevi para o DN e o i-online e temos uma página pública no facebook (Preparar o futuro: queremos prep em Portugal) com um milhar de aderentes que informa sobre a PrEP. Já se falou sobre PrEP no nosso parlamento, estando por agendar uma comissão parlamentar sobre o assunto, a deputada Isabel Moreira já escreveu sobre o tema na Visão. No meio de tanta informação pública, disponível e de fácil acesso como foi possível a um jornal diário escrever tanta desinformação sobre o tema e nem sequer procurar falar com as pessoas e organizações que estão há mais de um ano a trabalhar sobre a PrEP?

Escrevo-vos porque considero (como médico, como homem que tem sexo com homens, como activista na área do VIH e como utilizador assumido e público de PrEP) que o vosso artigo com chamada para a primeira página é um perigo do ponto de vista da saúde pública, fomenta medos, credos e preconceitos em relação ao VIH e desinforma sobre algo tão delicado e importante como a saúde da nossa população.

Com os melhores cumprimentos,

Bruno Maia

Médico Neurologista e Intensivista"

Texto original

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Problemas de comportamento e de saúde disparam nos lares de crianças


Andreia Sanches (Público)

«Há mais jovens com comportamentos problemáticos e de saúde. Há mais adolescentes. E tudo isto são desafios às casas de acolhimento. Governo promete mudanças. Medidas anteriores à retirada às famílias biológicas podem não estar a ser eficazes.

No final de Outubro de 2015 viviam em instituições de acolhimento 8600 crianças e jovens. O número dos que foram identificados como tendo problemas de comportamento, de saúde mental, de debilidade mental, de consumo de substâncias ou de algum tipo de deficiência física ou mental aumentou 38%, num só ano em 2014 já tinha existido um aumento de 10% face a 2013.

A maioria (5032) das crianças e jovens era acompanhada em psiquiatria e/ou pedopsiquiatra um aumento de cerca de 22% face a 2014. E um em cada quatro tomava medicação prescrita por um psiquiatra ou por um pedopsiquiatra. "São crianças que trazem percursos de vida extremamente traumatizantes e que precisam de um grande apoio para poderem reencontrar o seu equilíbrio", sublinhou nesta quarta-feira a secretária de Estado da Inclusão Ana Sofia Antunes durante a apresentação do relatório CASA 2015 Caracterização Anual da Situação de Acolhimento das Crianças e Jovens, feita aos jornalistas.

O relatório nota que se mantêm "os gravíssimos constrangimentos já registados nos anos anteriores nas situações que carecem de internamento/acolhimento em resposta específica de saúde mental". Lembra que há seis anos que está prevista a criação uma rede de Cuidados Continuados de Saúde Mental, mas que esta "ainda não foi concretizada, fazendo com que estes jovens fiquem acolhidos em casas de acolhimento não adequadas às suas problemáticas específicas". Resultado: quando entram em crise ou descompensação, "colocam-se muitas vezes a si próprios em perigo, bem como às outras crianças e jovens acolhidos" e aos profissionais que com eles trabalham.

Ana Sofia Antunes promete uma "revisão do regime de funcionamento das casas de acolhimento, de modo a apetrechá-las" melhor, para fazer face aos novos desafios colocados pela mudança que tem vindo a registar-se no perfil das crianças e jovens que nelas habitam. E o aumento dos problemas de comportamento e de saúde mental é um grande desafio. Mas haverá mais mudanças, diz.

Texto completo em publico.PT

terça-feira, 14 de junho de 2016

Portugal tem elevadas desigualdades sociais em saúde

 

«O relatório elaborado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) indica que "o acentuado corte nas despesas com saúde", que "fizeram baixar alguns pontos no ranking da OCDE, tiveram efeito mais acentuado nas despesas com medicamentos e recursos humanos". Em relação às desigualdades sociais em saúde, os autores concluíram que estas são uma "evidência recente para Portugal".

As desigualdades em saúde em Portugal são elevadas e os anos de "profunda recessão económica e de cortes orçamentais" tiveram consequências que ainda não são conhecidas, indica o Relatório de Primavera deste ano.

"Portugal tem vivido anos de profunda recessão económica e de cortes orçamentais em várias áreas, incluindo a saúde, educação e segurança social. Neste sentido, as desigualdades em saúde representam uma preocupação acrescida, à luz dos custos elevados que acarretam", lê-se no documento, elaborado pelo Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS).

Intitulado "Saúde procuram-se novos caminhos", o documento começa por recordar os relatórios elaborados nos últimos seis anos, nomeadamente sobre a questão da crise na saúde.

"Constatamos que a crise e o seu impacto na saúde dominou as atenções nesses anos tendo o OPSS apresentado ao longo desses anos diversas sugestões e alertas que poucas vezes foram tidos em conta", lê-se no relatório que será hoje apresentado em Lisboa, na presença do ministro da Saúde.

Os autores indicam que "o acentuado corte nas despesas com saúde", que "fizeram baixar alguns pontos no ranking da OCDE, tiveram efeito mais acentuado nas despesas com medicamentos e recursos humanos".

"Esses cortes ultrapassaram os cortes propostos pela troika no Memorando de Entendimento e ainda estamos longe de conhecer o verdadeiro impacto no sistema nacional de saúde, nomeadamente nos ganhos em saúde obtidos ao longo dos últimos anos".

Em relação às desigualdades sociais em saúde, os autores concluíram que estas são uma "evidência recente para Portugal", país onde existem "razões adicionais de preocupação".

"A evidência prévia demonstra que as desigualdades em saúde em Portugal são elevadas. Uma revisão sistemática recente aponta para a existência de disparidades em vários indicadores de saúde (como saúde auto-reportada, saúde mental, sintomas cardiovasculares e obesidade), relacionadas principalmente com instrução e género".

O OPSS recorda que "Portugal é um dos países mais desiguais da Europa em termos de rendimento", encontrando-se "entre os países com maior desigualdade, próximo de outros países do Sul da Europa, como Espanha, Grécia, Itália, ou Chipre, e países de Leste".

"No mesmo sentido, o risco de pobreza ou exclusão social é elevado em Portugal, quando comparado com outros países europeus, com taxas semelhantes àquelas observadas noutros países do Sul da Europa".

Um dos dados apresentados refere que "as pessoas sem formação têm um risco de ter má saúde seis vezes superior, em comparação com as pessoas com mais formação (ensino secundário ou mais)".

"O risco de diabetes é mais de quatro vezes superior no grupo sem formação, e o risco de hipertensão e Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica (DPOC) é três vezes superior. Para a depressão, o risco é mais elevado nos grupos com menor educação, embora seja superior para as pessoas com ensino básico comparado com as pessoas sem formação".

"Seja qual for a doença, a desigualdade aumentou claramente entre 2005 e 2014, independentemente do sexo e da idade".

Nos idosos, as desigualdades em saúde são ainda mais marcadas: "O risco de má saúde é cinco vezes superior nas pessoas sem educação e mais de duas vezes superior nas pessoas com ensino básico. O risco de doença crónica é quatro vezes superior nas pessoas sem educação e o risco de limitações mais de três vezes superior".

Os autores concluem ainda que, "apesar do carácter universal e tendencialmente gratuito do Serviço Nacional de Saúde (SNS), os cuidados de especialidade estão desigualmente distribuídos na população, a favor dos mais educados. Este facto também poderá contribuir para as desigualdades em saúde".

Para o OPSS, os dados analisados "indicam claramente que o SNS, apesar dos seus grandes e demonstrados benefícios para a saúde da população, e do seu carácter universal e tendencialmente gratuito, não é suficiente para combater as desigualdades em saúde".

Entre as várias estratégias para combater as desigualdades em saúde, os autores defendem que "as políticas de saúde pública devem focar os comportamentos de risco álcool, tabagismo, sedentarismo, dieta inadequada através de instrumentos económicos (impostos) e da regulação (por exemplo das gorduras, do sal ou do açúcar)".

"Os programas de rastreio devem ser acessíveis a todos, assim como os cuidados de saúde", preconiza o Observatório.

O OPSS é uma parceria entre a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, o Centro de Estudos e Investigação em Saúde da Universidade de Coimbra, Universidade de Évora, e a Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa.»

Lusa e Económico

"Os laboratórios farmacêuticos inventam doenças"



«Joan-Ramon Laporte é chefe do serviço de farmacologia do Hospital Vall d’Hebron. É catedrático em farmacologia na UAB e dirige a Fundação Instituto Catalão de Farmacologia.

"Os medicamentos são a terceira causa de morte após o infarto e o câncer, segundo estudos feitos nos EUA. A cada ano morrem 100.000 pessoas por erros de medicação, e 100.000 por efeitos adversos".

"A implicação dos medicamentos em patologias comuns é muito importante. Os medicamentos produzem doenças que não se distinguem das outras. Podem produzir um infarto de miocárdio, ou que a pessoa caia e quebre o fêmur, ou um ataque psicótico".

"Só na Catalunha há entre 6.000 e 9.000 fraturas de cabeça de fêmur por ano: entre 13 e 14% delas têm a ver com o omeoprazol e medicamentos análogos. Dificulta a absorção do cálcio e as pessoas que o tomam habitualmente desenvolvem osteoporosis. Um 8,4% das fraturas as produzem medicamentos para dormir. Mais de 300 têm a ver com antidepressivos".

"A industria farmacêutica está medicamentando tudo. Os laboratórios inventam doenças, convertem a tristeza em depressão, a timidez em fobia social ou o colesterol numa doença. Os lobbies farmacêuticos promovem mais mentiras que medicamentos. Dizem que são mais eficazes do que realmente são".

"Embora as permissões de comercialização sejam dadas pela Agência Europeia de Medicamento, cada país pode decidir se financia um determinado medicamento. Na Espanha se financiam todas as novidades. Por exemplo, há seis medicamentos anti-neoplásicos que Grã Bretanha recusou financiar e que aqui se financiam".

"Quando um medicamento sai ao mercado, é tão pouco conhecido, porque foi estudado tão pouco, que não estamos certos de que não possa ter efeitos indesejados graves".

"Na Espanha nos polimedicamos. Há 15 anos se davam entre 12 e 13 receitas por pessoa ao ano. Agora, quase 20. Pelo menos a metade dos medicamentos que tomamos são desnecessários. Há gente que durante toda sua vida toma medicação para dormir, após três ou quatro semanas o corpo já o assimilou e é tão eficaz como o placebo".

"Os laboratórios não dão acesso público aos ensaios clínicos. Também o não dão ao sistema de saúde. A Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários aprova medicamentos sem ver os dados de cada um dos pacientes que participaram nos ensaios".

"O tempo que se demora em retirar um medicamento porque produz efeitos indesejados graves passou de seis ou sete anos em 2004, a 12 ou 14 anos hoje em dia. Custa muito mais retirá-los, e isto é pela crescente influência da industria sobre os sistemas de saúde, tal como denunciou o Conselho da Europa".»

Fonte:
daqui
 

terça-feira, 31 de maio de 2016

Hospitais públicos pagaram 100 milhões aos privados para fazerem cirurgias


Nos últimos três anos, os hospitais públicos pagaram cerca de 100 milhões de euros em cirurgias e consultas feitas no privado para reduzir as listas de utentes à espera de procedimentos cirúrgicos, que poderiam ter sido feitos no sector público, caso o governo anterior não tivesse cedido aos fortíssimos lóbis da saúde privada, médicos e grupos económicos, sendo a saúde considerada já o cluster mais lucrativo do século XXI (a seguir ao tráfico e ao petróleo, claro!).

À semelhança do que acontece com o ensino, mas com certeza para pior, o Estado, através dos governos que o gerem, tem desinvestido nos serviços públicos de Saúde, congelamento das carreiras, não admissão de novos profissionais, reformas antecipadas até há algum tempo atrás, aumento do horário de trabalho (de 35 para 40 horas), corte no valor do preço hora e das horas complementares e extraordinárias, encerramento de serviços, para entregar aos tubarões da medicina privada muitos milhões para a realização de actos médicos e prestação de cuidados de saúde e exames complementares de diagnóstico que ele próprio tem competência e capacidade para realizar.

O boicote à realização de cirurgias e consultas por parte de alguns médicos, bem como a realização de exames complementares de diagnóstico, tem sido uma estratégia delineada e colocada em prática desde há muito, desde do tempo dos governos de Cavaco Silva/PSD, com a conivência activa das administrações hospitalares e que, nos últimos tempos, teve um desenvolvimento extraordinário com a abertura de clínicas privadas mesmo ao lado das instituições de saúde do estado, adoptando inclusivamente nomes muito semelhantes à daquelas, como aconteceu em Coimbra.

E também não será por acaso que se encontra em Coimbra a instituição pública que mais dinheiro tem dado a ganhar às clínicas privadas a fim de realizar aquilo que ela não pode ou não quer (vamos lá saber as razões exactas?). Foram mais de 2.500 cirurgias realizadas fora, com um custo total de 4,6 milhões de euros, e com mais de 14 mil inscritos. Coimbra lidera também as listas de espera, mais do que o Centro Hospitalar Lisboa Central que vem a seguir! Tem sido o fartar vilanagem!

Este problema facilmente seria resolvido desde que houvesse vontade política, coisa que este governo ainda não manifestou, bastava: separar o público do privado, quem trabalha no público não trabalha no privado (há médicos e até alguns enfermeiros que parecem ter o dom da ubiquidade!); rentabilizar os blocos operatórios, que estão na maior parte do tempo às moscas; responsabilizar pessoalmente os administradores hospitalares, parece que isso já existe mas só no papel; e... contratar mais profissionais de saúde, os necessários, seria até uma boa forma de combater o desemprego, e de forma indirecta subir os salários, e igualar por cima os contratos no privado, colocando-os a par dos da função pública; neste particular, os enfermeiros até agradeciam e um bom ponto de reflexão para os nossos "queridos" dirigentes sindicais!

DN: «Só em 2015, foram emitidos mais de 111 mil vales para operações no setor privado ou social, com um custo de 36 milhões de euros
Entre 2013 e 2015 os hospitais públicos gastaram cerca de cem milhões de euros em operações feitas fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS), no setor privado ou social, através de vales-cirurgia, emitidos ao final de seis meses de o doente estar à espera. Só em 2015 foram emitidos mais de 111 mil vales que levaram à realização de 20 282 operações, com um custo de 36 milhões de euros. O ano terminou com perto de 194 mil utentes na lista de inscritos para cirurgia - mais dez mil do que 2014 - e 5972 doentes pendentes.

Os dados provisórios do Ministério da Saúde foram enviados ao Bloco de Esquerda numa resposta sobre o Sistema Integrado de Gestão de Inscritos para Cirurgia (SIGIC) nos últimos três anos e a que o DN teve acesso. Uns hospitais descem, outros sobem, mas no total a fatura e o número de operações feitas fora do SNS aumentou . "Acreditamos que se pode estabelecer uma relação com a saída dos profissionais mais diferenciados e a redução de serviços. Podem estar a deixar o SNS com menos capacidade e a enviar mais doentes para o privado. Não compreendemos que aconteça, porque o SNS tem capacidade instalada e é preciso aproveitá-la. É incompreensível que hospitais de fim de linha enviem imensos doentes para o privado", diz Moisés Ferreira, deputado do BE.

O Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) é o que tem a fatura mais elevada e 2560 cirurgias realizadas fora. No final do ano tinham 14 mil inscritos na lista e 237 doentes pendentes. "Apenas 25% dos doentes aceitaram ser operados fora do CHUC. O valor faturado foi de 4,6 milhões de euros. O CHUC é dos hospitais com maior produção cirúrgica. Em 2015 foram feitas 65 735 cirurgias. Temos vindo a "aumentar a capacidade interna e a reduzir a emissão de vales-ci rurgia", refere. Quanto aos doentes pendentes, "são propostas cirúrgicas que estão em fase de avaliação clínica e/ou a aguardar exames e esclarecimentos adicionais", número que não consideram elevado dada a procura. (...)»

Hospitais pagam cem milhões em cirurgias no privado

Ver também a reportagem
"Médicos sabotam SNS para obrigar doentes a ir ao privado"