sábado, 29 de novembro de 2014

Epidemias e pandemias



Ébola e Obama
por Peter Koenig, in "The Vineyard of the Saker"

Em outro campo, aparentemente sem relação com o que se discutiu acima, está emergindo fenômeno novo. Desde o início parece nada ter a ver com a disputa ente leste e oeste pelo poder econômico. Mas absolutamente não é fenômeno não conectado à fracassada economia ocidental.

Fala aqui da ameaça de pandemias mortais que parecem emergir todas ao mesmo tempo – e todas sob o controle da ONU e de seu braço especializado, a Organização Mundial da Saúde (OMS), constituída, assistida e aconselhada por várias empresas fabricantes de medicamentos, cuja atividade dentro da OMS é também ignorada pela opinião pública mundial. Quase todas as epidemias, potencialmente pandêmicas, começaram na África, onde estão hoje cerca de 60% dos recursos naturais não renováveis do planeta – recursos que são empenhadamente buscados, para o próprio conforto e bem-estar, pelas elites que governam os hemisférios ocidental e norte.

O ebola reapareceu há alguns meses na África Ocidental – Libéria, Sierra Leone, Guiné e, na sequência, disseminou-se para o Mali e a Nigéria. Ebola não é doença nova. Desde os anos setenta há casos observados e registrados na África Central, ex-Zaire. A OMS conhece antídotos e vacinas. Mas o Departamento de Defesa dos EUA – o qual, por falar dele, mantém um programa de pesquisas de armas para guerra biológica – contratou um laboratório canadense há dois anos, para testar e desenvolver uma vacina contra o ebola, em hospitais especialmente construídos para esse fim na Libéria e em Sierra Leone. Desde o início do novo surto de ebola em julho de 2014, já teriam morrido mais de 5 mil pessoas, segundo a OMS.

Há alguns dias, circulou a notícia, distribuída pela OMS, de outra epidemia, em Madagascar, que já provocara 40 mortes desde agosto de 2014. – A peste bubônica, também chamada Peste Negra, era considerada extinta, depois de ter dizimado 1/3 da população da Europa no século XIV, embora haja notícia de uma forma menos virulenta da doença, que continuaria a existir até hoje. A última notícia de epidemia é de 1904, quando morreram cerca de 3% da população de Bombaim, em momento em que ainda não havia antídotos. A versão que se encontra hoje pode, ao que se sabe, ser combatida bem facilmente com antibióticos e pesticidas. Assim sendo, por que continuaria a matar pessoas em Madagascar? E por que as notícias só apareceram agora?

Há algumas semanas, o vírus da febre aviária, o mortal H5N1, foi novamente encontrado nos Países Baixos, na Alemanha e no Reino Unido. De sete casos recentemente notificados dessa febre aviária no Egito, dois doentes morreram. Em 2009, graças a um falso alarme distribuído pela OMS, a Europa comprou centenas de milhares de doses de vacina anti-H5N1 – o que foi como ganhar na loteria para as gigantes da indústria farmacêutica – escândalo que maculou profundamente a imagem da OMS. Em alguns países, dentre os quais a Suíça, pessoas que não manifestavam qualquer sintoma de resfriado foram praticamente forçadas a vacinar-se. [1]

A epidemia de AIDS (em português SIDA, Síndrome Da Imunodeficiência Adquirida), doença causada pelo vírus HIV – também criado como experimento do Pentágono para a guerra biológica – eclodiu nos anos 1980s, também na África, de onde se teria disseminado para o Haiti, de onde teria sido “importada” para os EUA e para o resto do mundo. Hoje, embora permaneça incurável, a doença já pode ser controlada. Mas uma nova cepa do mesmo vírus sempre poderá ser facilmente criada, para tornar impotentes as drogas que se usam hoje.

Tudo isso obriga a pensar em esforço organizado e concentrado, pela elite do poder, para

(I) manter paralisadas as populações; e justificar a aplicação de leis marciais (e na maioria das vezes de lei-zero) para sufocar quaisquer levantes potenciais, por exemplo contra uma nova onda de assalto/roubo organizado pela ganância da predatória elite econômica ocidental; e (II) para ajudar a gradualmente reduzir a população mundial – alvo que a elite ocidental busca alcançar desde o final da IIª Guerra Mundial – e também um dos objetivos chaves do Grupo Bilderberg, como já se ouviu anunciado por várias figuras do poder como, dentre outras, Bill Gates e, várias vezes, também por Henry Kissinger, muito provavelmente o pior criminoso de guerra ainda vivo no mundo.

Alguns doentes podem ser facilmente postos sob quarentena por Ordem Executiva assinada pelo presidente, sob o pretexto de que a quarentena dos doentes protegeria a população em geral – e aquelas pessoas podem receber vacinas e antídotos desenvolvidos clandestinamente como parte do programa de guerra biológica – para proteger a elite – com outros medicamentos destinados ao público em grande escala, provavelmente já distribuídos junto com a própria doença que se supõem que devessem evitar. Uma vez que Washington dê a ordem, por exemplo, de vacinação obrigatória, ou de lei marcial – os lacaios europeus simplesmente obedecerão; é modo fácil para manter as populações sob controle, ao mesmo tempo que o sistema financeiro ocidental corre para o seu objetivo final: depredar, pôr abaixo, reduzir a ruínas o que reste das redes de proteção social, de saúde pública e as poupanças públicas. (...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Indústria farmacêutica: superlucros criminosos



Por Michael Voss

Peter C. Gøtzsche, no livro “Deadly medicines and organised crime”, apresenta uma longa e bem documentada acusação contra a indústria farmacêutica (Big Pharma)

Na Dinamarca, a despesa em medicamentos e em hospitais públicos duplicou em apenas sete anos e as previsões apontam que as autoridades sanitárias deverão destinar a esta rubrica 1.100 milhões de euros. Evidentemente, este dado provocou debates entre os profissionais dos hospitais, os políticos, os jornalistas e os académicos do setor. Desafortunadamente, trata-se de um debate equivocado: pode a sociedade permitir medicamentos tão caros que apenas servem para prolongar a vida de pessoas com doenças graves durante uns meses ou talvez um ano?

Como exemplo dos medicamentos caros, num recente artigo de imprensa foram citados os seguintes: - Zytica, para o tratamento do cancro da próstata; - Yervoy do tratamento de cancro de melanoma; - Gileneva, para o tratamento da esclerose.

Se a jornalista se tivesse preocupado em investigar um pouco, teria comprovado que estes três fármacos são produzidos por JanssenBiotech (antigamente Johnson & Johnson), Bristol-Myers Squibb e Novartis. Esta informação teria dado uma pista de onde se encontra o verdadeiro problema. As três grandes empresas farmacêuticas que citámos encontram-se entre as infames citadas num livro publicado no ano passado na Dinamarca: “Deadly medicina and organised crime” (Medicamentos que matam e crime organizado). O livro foi escrito por um reconhecido professor dinamarquês, Peter C. Gøtzsche, que ao longo de 450 páginas apresenta uma longa e bem documentada acusação contra a indústria farmacêutica (Big Pharma) por fraude, corrupção, lucros ultra exagerados e distribuição de medicamentos mortais.

Entre as suas acusações, encontram-se as seguintes:

- Que um desmesurado número de pessoas morre por causa dos medicamentos.

- Que a Big Pharma comercializa, com conhecimento de causa, medicamentos sem efeitos positivos nas doenças dos pacientes.

- Que a indústria farmacêutica retém e manipula dados com o fim de ocultar sérios efeitos secundários.

- Que a indústria paga (suborna) investigadores para aconselhar os seus produtos, e paga a médicos para comercializar e distribuir os produtos aos seus doentes.

- Que a Big Pharma tem sentenças reiteradas que a obrigam a pagar milhões de euros em multas por causa da comercialização de produtos perigosos ou medicamentos sem qualquer efeito mas que, com frequência, negoceia acordos extrajudiciais para evitar sentenças que a obrigariam a dar informação detalhada dos medicamentos.

- Que há Investigadores académicos e autoridades públicas que assessoram a indústria farmacêutica para que substitua medicamentos relativamente baratos por outros mais caros e com o mesmo resultado. - Que a indústria atribui mais fundos para a comercialização do que para a investigação, ao mesmo tempo que tenta legitimar as suas patentes de monopólio com os altos custos de investigação.

Todo isso está baseado em documentos provenientes da indústria farmacêutica mundial. Vários dos exemplos incluem a Bristol Myers Squibb e a Novartis.

Entre as suas conclusões Gøtzsche assinala: "Em 2012 cinquenta grandes empresas venderam 610 mil milhões de dólares em medicamentes prescritos. Estou absolutamente convencido que esta quantidade podia ser reduzida em 95% (isto é, em 580 mil milhões de dólares), porque o nosso medicamento mais comum é 20 vezes mais caro que o alternativo com o mesmo efeito e porque a cidadania esta 'sobremedicada'”.

Por conseguinte, pode acontecer que a solução para a saúde pública dinamarquesa não seja negar às e aos pacientes o tratamento que precisam, mas rever os métodos e lucros da indústria farmacêutica privada e começasse a pôr limites ao seu poder e ao seu lucro. Inclusive para isto, o professor Gøtzsche apresenta algumas pistas. Um capítulo inteiro é dedicado a soluções políticas para este problema.

No nível mais básico, sugere que as autoridades poderiam perseguir a criminalidade da Big Pharma com a mesma energia com que atacam a criminalidade comum e que poderiam proteger os delatores que pudessem existir na própria indústria e compensá-los no caso de perderem o emprego. E avançar para medidas mais radicais, Gøtzsche propõe as seguintes:

- Obrigar às empresas a tornar públicos os dados de investigação e outro tipo de conhecimentos sobre os seus medicamentos;

- Obrigar as empresas a publicar todos os seus contratos;

- Proibir as empresas médicas privadas de realizarem as suas próprias investigações; em seu lugar, deveriam pagar um imposto especial para financiar a investigação pública.

Finalmente, o livro analisa o núcleo do problema e as soluções reais. A primeira é desmedicalizar a sociedade. A segunda, proibir a propriedade privada das empresas médicas e substitui-las por empresa públicas sem fins lucrativos: “Deixar que as forças do mercado determinem as regras não favorece as necessidades das e dos pacientes, e é incompatível com uma profissão baseada na ética. O objetivo do lucro não produz benefícios sociais”.

Em Esquerda.net

sábado, 22 de novembro de 2014

As lamentações do ministro



O ministro da Saúde, ou melhor, o comissário para a liquidação do SNS, classificou de “lamentável” a greve nacional dos enfermeiros que, neste segundo dia, teve uma adesão superior, 80% contra 70% do primeiro dia (14 de Novembro), salientando a ideia da “banalização da greve” como se esta não tivesse razão de ser e não fosse a resposta à banalização das medidas de austeridade lançadas contra a classe dos enfermeiros. Esta demagogia, difundida amplamente pelos órgãos de informação corporativos do regime, engloba o “combate” travado pelo governo contra o surto de pneumonia por legionella, como se também o governo não fosse, em última estância, o primeiro responsável pelo considerado terceiro surto mais grave a nível mundial daquela doença infecto-contagiosa, combate que teria sido prejudicado pela greve dos enfermeiros. O surto epidémico foi mais um pretexto para atacar a greve dos enfermeiros e para auto-desculpabilização do não atendimento das reivindicações, mais que sentidas e justas, dos enfermeiros.

A revogação da medida que levou ao aumento do horário das 35 horas para as 40 horas semanais não é – nas palavras do ministro das lamentações – da competência do ministério da Saúde, mas por esta lógica, atendendo à posição de indiferença ministerial, pouco ou nada das questões apresentadas no caderno reivindicativo apresentado pelos sindicatos será da competência do ministério. A arrogância é indisfarçável apesar dos factos ocorridos ultimamente que implicam altos quadros da administração pública de nomeação governamental, e até o próprio ministro da Administração Interna que foi obrigado a demitir-se, no maior caso de corrupção visto até agora em Portugal (os Vistos Gold tão queridos ao vice-primeiro-ministro).

O governo mais corrupto que o país teve depois do 25 de Abril, e até antes do 25 de Abril, e que se vai desfazendo aos poucos ainda tem força para mostrar os dentes pela simples razão de que os partidos da oposição e as lutas travadas pelos trabalhadores são demasiado complacentes. A culpa da sobrevivência deste odiado governo não deve ser atribuída unicamente à múmia que se encontra instalada no Palácio de Belém. Nós também somos responsáveis, porque conciliamos e não nos dispomos a travar um combate prolongado e tenaz até extirpar a causa dos nossos problemas.

Não podemos ter ilusões quanto a este governo venha a satisfazer a menor das nossas reivindicações e, ainda por cima, com os sindicatos em teimar ir beber chá ao nº 9 da Avenida João Crisóstomo, em Lisboa, como no tempo da anterior ministra do governo PS. É continuar a enganar a classe quanto a alguma hipotética virtualidade do governo. E, mais, os sindicatos acabarão por dar razão ao ministro das lamentações porque greves de dois dias, um em cada semana, serão completamente ineficazes.

Este governo só tem atacado os direitos dos trabalhadores, a sua política é cortar, cortar e cortar ainda mais salários e reformas, é aumentar os impostos e, agora, como está previsto no Orçamento de 2015, despedir sob a falsa capa da “requalificação profissional”; desemprego que – quem diria! – atingirá os próprios médicos, classe tida tradicionalmente como privilegiada. Gostaríamos de perguntar aos sindicatos o que de bom o governo PSD/CDS-PP deu aos trabalhadores e, em particular, aos enfermeiros? Que saibamos, NADA!

Este governo não vai lá com panos quentes e só conhece uma linguagem: luta dura e prolongada, onde se inclui a greve geral pelo tempo e pelas vezes necessárias até ao seu derrube. Tudo o mais será andar a entreter, o que, diga-se de passagem, o governo agradece, porque entretanto vai lançando mais austeridade.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Trabalhar por turnos envelhece o cérebro mais depressa



DL 62/79: OE/2015 continua a cortar em 50% as Horas de Qualidade e Extraordinárias. Governo mentiu!Min. Saúde vai rever Suplementos Remuneratórios dos Profissionais até Dez/2014. ( Documento da Greve dos Enfermeiros em 14 e 21 de Novembro )

De acordo com o estudo publicado na revista norte-americana "Esquire", e conhecido esta quarta-feira, alterar os turnos de forma irregular e desregrada pode levar a danos da função cerebral, não só em termos de memória, mas também de rapidez de raciocínio.

O estudo, que também incluiu investigadores de outras universidades europeias, observou, durante 15 anos, cerca de 3000 pessoas que trabalhavam por turnos e que tinham passado por uma rotatividade acentuada de horários. Entre estes trabalhadores, 1197 tinham feito por ano 50 turnos diferentes durante uma década, tendo sido analisada a sua capacidade cognitiva depois de se terem reformado, em 1996, 2001 e 2006.

Foram comparados com outros profissionais com horários regulares e que se reformaram nos mesmos anos.

Os que tinham trabalhado por turnos rotativos apresentavam problemas de memória, de processamento rápido de informação e de deterioração geral das capacidades cognitivas, quanto comparados com os trabalhadores que tinham os horários regulares.

Mas o estudo revela ainda que é possível recuperar as capacidades cognitivas quando for interrompido o trabalho por turnos, embora possam ser necessários cerca de cinco anos.

Nas conclusões do estudo, os investigadores salientam que não é somente a saúde daqueles profissionais que está em causa, mas também a das pessoas com quem lidam.

Este não é o primeiro estudo do género a demonstrar que a rotação de turnos provoca danos na saúde, pesquisas anteriores revelaram que este tipo de rotação irregular leva a níveis mais baixos de serotonina, assim como uma probabilidade elevada de diabetes tipo 2, ataques cardíacos e úlceras.

No entanto, os investigadores são cautelosos em não apontar somente um fator para esta causa, considerando que há dois grandes "suspeitos": a interrupção do relógio interno do corpo e a privação da vitamina D proveniente do sol.

Os efeitos dos padrões de sono perturbado são mais fáceis de perceber, já que o relógio interno, que regula o sono e o apetite, mantém o cérebro em modo de tensão constante. Quando alguém trabalha no turno da noite e depois tem de enfrentar de forma alternada o turno da manhã, sente-se sonolento quando está a trabalhar e ativo quando deveria estar a dormir.

Segundo um estudo mais antigo referido no site "Science Daily", os trabalhadores de turnos noturnos e diurnos, dormem tipicamente menos uma a quatro horas do que a média. Alguns efeitos da privação do sono são imediatamente sentidos: sonolência, raiva, depressão, ansiedade, diminuição do desejo sexual, esquecimento e abrandamento de reflexos.

Em JN

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Na greve da Saúde: Onde está o Wally?



Os trabalhadores da Administração Pública do sector da Saúde fizeram uma greve de 24 horas no passado dia 24, os objectivos eram a reposição das 35 horas semanais, pelo aumento dos salários e das pensões; em suma, pelo trabalho com direitos, pela contratação colectiva e defesa do SNS. Na próxima 6ª feira, dia 31, uma nova greve será feita, ao que parece, para justificar as faltas dos trabalhadores que queiram ir à manifestação nacional a realizar em Lisboa. Perante a luta, promovida pela FP-CGTP, coloca-se a questão: por que carga de água a greve não abrangeu todos os trabalhadores do SNS, incluindo os técnicos mais qualificados entre os quais os enfermeiros?

Ainda estamos bem lembrados da greve de dois dias, realizada há um mês (24 e 25 de Setembro) dos enfermeiros que, pela justeza das suas reivindicações, teve um elevada adesão por parte da classe e até foi bem encarada pela opinião pública, apesar da campanha enviesada de descrédito levada a cabo pelos principais meios de comunicação, especialmente os mais próximos do governo. Então, por que razão não se deu continuidade à greve? Será que os principais objectivos apontados foram atingidos? O governo atendeu às reivindicações da classe de enfermagem? Alguém sabe responder, é que ficamos sem saber de nada?

Para dar resposta à interrogação, procuramos no site do SEP algum documento que esclarecesse, e o único que se encontrou foi a resolução, datada do dia 25 de Setembro, entregue no Ministério da Saúde pelo SEP e SERAM, que elenca as reivindicações já conhecidas e sob o lema: “Pela admissão de mais enfermeiros”, “Pela valorização do papel social da enfermagem”, “Pelo desenvolvimento profissional e valorização económica do trabalho dos enfermeiros”. Este é a última informação que se tem do “resultado” da greve. Ou seja, nada se sabe. Esta seria mais uma razão, o silêncio do governo, para se ter feito greve juntamente com os restantes trabalhadores da Saúde. Ou, então, também se pode entender que o silêncio será mais daqueles dois sindicatos, o que não deixará de ser particularmente grave. Pode ser expressão de impotência ou de conveniência, mas só os próprios poderão esclarecer.

A situação da classe está em deterioração progressiva e imparável, a nível salarial, a nível de condições de trabalho, a nível de satisfação pessoal, factores que influenciam a qualidade dos cuidados prestados ao povo português que não tem possibilidade de recorrer às clínicas privadas, embora algumas destas já pratiquem preços menos elevados graças ao apoio financeiro prestado pelo governo PSD/CDS-Estado. Esta perda de qualidade do SNS é intencional, é calculada e tem sido executada permanentemente, apesar de disfarçada pelo governo/ministro Paulo Macedo e pela aparente não diminuição das verbas destinadas à Saúde no próximo Orçamento do Estado. O que vai acontecer é que na distribuição dos dinheiros a parte que será entregue aos negociantes privados será maior, enquanto a destinada ao SNS será cada vez mais minguada, e o congelamento das carreiras, com a não progressão (concurso para Enfermeiro Principal não passa de uma miragem que os próprios sindicatos alimentam), e o adiamento das novas (poucas) contratações são a melhor prova desta desigual e ilegítima distribuição dos dinheiros públicos.

E não há que ter ilusões, e os sindicatos deviam ser os primeiros e denunciar o engano, quanto às carreiras da Função Pública (FP) e à Contratação Colectiva, a verdadeira intenção do governo, e do governo que lhe suceder mesmo que pintado com o rosa do Costa de Lisboa, é acabar com elas. Na Europa comunitária, Portugal é o país onde a contratação colectiva foi mais atacada, perante a passividade dos sindicatos, e com as carreiras na FP congeladas, com excepção da dos polícias, dos diplomatas e dos médicos, as únicas que irão sobreviver por razões óbvias; mesmo a dos médicos não está inteiramente garantida. Tem-se assistido a um ataque aos trabalhadores, aos seus direitos, aos seus rendimentos e condições trabalho, jamais visto nos últimos 50 anos, nem na fase final do fascismo. A contratação de enfermeiros a empresas de trabalho temporário por parte do Estado/governo PSD/CDS por 1200 euros mensais, obrigando às 40 ou mais horas semanais, indo a empresa negreira embolsar mais de metade daquele valor, ficando os enfermeiros a auferir 3,1 euros/hora, é a melhor expressão da situação a que chegou a classe de enfermagem. Se uma situação destas fosse levantada como mera hipótese a algum dirigente sindical aqui há alguns anos atrás, quase de certeza que iríamos ouvir que seriam desencadeadas as mais temerárias lutas. Mas os factos valem por mil palavras.

E os factos dizem que as lutas feitas a prestações, este mês faz-se um dia de greve, daqui a três ou quatro dias fazem-se mais dois; agora, faz-se greve num sector dos trabalhadores da FP, e nem todos farão, daqui a algum tempo será noutro sector ou os restantes do dito; neste mês, faz-se greve em alguma empresa do sector público, no mês seguinte faz-se na administração local, e depois na administração central. É assim, usando esta táctica de (má) guerrilha que os sindicatos, ou melhor, as direcções sindicais, entendem como melhor maneira de fazer frente ao governo e às suas celeradas e anti-populares políticas, que em nome da austeridade imposta por Bruxelas/FMI são continuadas e colhem cada vez menos apoio inclusive por parte das classes médias. Ora esta estratégias, longe de enfraquecer o governo, vai é exaurir as forças e a vontade de lutar dos trabalhadores, que vão perdendo dinheiro dos dias de greve sem vislumbrar resultado palpável. Percebe-se que os nossos dirigentes sindicais possam ter alguma coisa a perder se as greves ficarem sem controlo e incomodarem seriamente o governo. Lá se irá o tácito pacto social do regime estabelecido nos idos do 25 de Novembro de 1975.

A proposta do Orçamento de Estado para 2015, apesar de acenar com ligeira diminuição do IRS, mantem os cortes salariais e das pensões (dinheiros que não vem dos impostos mas das contribuições dos trabalhadores para os seus sistemas de saúde e segurança social) e o próprio aumento dos impostos. Em 2015, os cidadãos portugueses vão pagar mais de 2 mil milhões de euros a mais, e não a menos, enquanto as empresas (os patrões) vão pagar menos 900 milhões de euros. E logo que assente a poeira do resultado das próximas eleições legislativas, independentemente de quem ganhar, a austeridade será para continuar e em dose reforçada: Portugal terá de pagar só de serviço da dívida 60 mil milhões de euros até 2020, de uma dívida pública que já ultrapassou os 134% do PIB (em 2011, era 90%) e que é já impagável.

Na greve da Saúde, onde estão os sindicatos dos enfermeiros? Não será necessário elencar mais razões para se perceber que não é com greves a conta-gotas e de acordo com agendas que nada têm a ver com os trabalhadores que estes verão satisfeitas as suas reivindicações e muito menos irão derrubar este governo, como se pode ler nos comunicados da FP-CGTP desta greve dos dias 24 e 31 de Outubro. Só greve geral nacional pelos dias e pelas vezes que forem necessários que os trabalhadores, e em particular todos os trabalhadores da Saúde, deste país poderão ver resolvidos os seus anseios mais imediatos e livrarem-se deste odiado e miserável governo que sempre pautou a sua actuação pela defesa dos banqueiros e de uma União Europeia hegemonizada por uma Alemanha que porfia fazer através da economia o que os panzers de Hitler não conseguiram há 75 anos.

sábado, 25 de outubro de 2014

Homem que foi internado sem ser louco conta história na primeira pessoa



O homem que esteve quase três meses internado na ala psiquiátrica do Egas Moniz deu uma entrevista ao i, por considerar que é preciso um rosto para que algo mude.

Como é que foi estar dentro de uma ala psiquiátrica durante meses sabendo que não estava doente?

Em primeiro lugar estava num hospital e ninguém me dizia do que é que eu padecia, nunca me foi mostrado nenhum relatório a dizer o porquê de eu ter sido internado compulsivamente. Isso foi o pior.

Mas percebeu pelo ambiente que o que estaria em causa seria uma alegada doença mental?

Naturalmente. Desde há muito tempo que há familiares que me dizem que eu tenho um problema...

Porque é que acha que isso acontece?

Eu trabalhava de madrugada até ser internado, porque a equipa que eu geria estava espalhada pelo mundo inteiro e eu não tinha horas. Estava sempre ligado e mal havia um toque no computador eu acordava. E isso contribuiu para a criação de uma imagem de que eu não estava bem.

Culpa os seus familiares mais próximos por terem pedido o seu internamento?

Não, o problema aqui não está no até ao internamento. Isso é do foro privado e acredito que o tenham feito por preocupação. O problema para mim vem a seguir e prende-se com a forma como eu sou internado sem qualquer avaliação médica.

Quando diz que não tinha horas é porque trabalhava ao computador - fazia jogos - e não cumpria um horário normal...

Sim, trabalhava com uma empresa sueca, desde que arranjei um sistema em que peguei em scripts deles e gerei uma nova fórmula de game play nos jogos deles. Ou seja, em vez de termos coisas que aconteciam por probabilidade eu fiz cadeias dinâmicas que estavam continuamente a ocorrer por baixo do jogo base e que faziam com que este fosse sempre diferente, mas plausível mediante as histórias. E começaram-se a juntar a mim pessoas de outros países, mais talentosas que eu. Esta minha ideia começou a ter sucesso e às tantas a empresa ofereceu-me a possibilidade de fazer um jogo de estratégia.

Consegue agora perceber o que aconteceu até ao dia em que a PSP o foi buscar? Tudo começa quando a minha cunhada fala com uma médica amiga dela. Uma espécie de cunha?

Acho que sim, não tenho provas de que foi mesmo uma cunha. Mas os documentos referem que foi ela que descreveu o meu caso a uma colega. A forma como tudo foi conduzido indica isso.

Confirma que nunca foi visto por nenhum médico até a PSP o ir buscar a casa...

Nunca.

Quando chega acompanhado da PSP ao Hospital de São José o que é que lhe passava pela cabeça?

Não sei. Lembro-me de a médica que me recebeu ter posto a mão em cima das minhas e dizer-me: "Vamos ser amigos, Carlos?" Não achei nada daquilo normal, entenderia se ela estivesse a falar com uma criança, não comigo, que tinha 41 anos e estava bem. Naquele momento era eu que estava a achá-la louca. Rebati esta situação e ainda me foi perguntado: "Ah, não quer? Porquê?" Não sabia o que responder.

Esta médica escreveu que não viu qualquer sinal de doença, mas deu seguimento ao internamento. Quando é transferido para o Egas Moniz percebeu que uma das médicas que lá estava era a tal conhecida da sua cunhada?

Não, nunca me apercebi de nada. Não a conhecia. E nem sabia quem é que tinha feito a informação clínica do meu caso, não sabia de nada.

Quando começou a dizer que não estava doente o que é que é que lhe diziam?

O enfermeiro que me recebeu, por exemplo, respondeu-me: "Está bem, Carlos. A gente daqui a 15 dias falamos para ver se continuas a achar o mesmo..." Desde o início que diziam: "Todos dizem o mesmo, você precisa de ser tratado."

Desconfiou de si logo nessa altura?

Não tive dúvidas nenhumas e quanto mais pessoas via contra mim, mais força tinha. Um amigo meu dizia-me que se eu sobrevivesse àquilo seria uma fortaleza mental. Lá dentro qualquer um dá em maluco.

Como é que se refugiava?

Agarrei-me a rotinas, fazia tudo à mesma hora e levantava-me cedo. Decorava os dias da semana, as horas e tentava não vegetar. Tinha noção de que não podia perder as referências, isso era perigoso.

Deitava os comprimidos fora...

Sim, fi-lo até poder. Fui apanhado a primeira vez por esse enfermeiro e aí, como eu era muito ajuizadinho, ele limitou-se a dar-me de novo os comprimidos.

À medicação intramuscular é que não conseguia fugir...

Quinze dias após entrar deram-me Risperdal Consta, que é muito pesado. E deram-me, não por eu andar a deitar os outros comprimidos fora, mas porque era medicação complementar. A solução para eu tomar os comprimidos passou por moê--los e darem-mos na água.

E é quando começa a tomar toda a medicação que começa a ficar mais em baixo...

Sim, até aí andava normal sem qualquer medicação. Eles é que não sabiam.

Quer um apuramento de responsabilidades?

Claro. Há cinco médicos que terão de responder por esta situação.

E a sua cunhada coloca-a no rol dos médicos ou no dos familiares?

Essa pessoa não me via há mais de 15 meses. Entra no lote dos médicos porque também tem de respeitar a sua ética profissional e não agir com base em imagens feitas.

Algum médico tentou demovê-lo de agir?

Quando saí do internamento e fui levar as injecções no ambulatório, estava já a ser seguido por um outro médico. Esse já tinha algum sentido crítico e percebeu que tinha de negociar comigo, mas também sentia que não podia cessar o tratamento porque estava inserido na equipa médica que me medicou.

Mas que tipo de negociação?

Em Abril disse-lhe que não podia continuar, estava de rastos, e que a minha vida estava destruída. E ele disse-me: "Tiro-lhe as injecções, mas esquece todo este caso..." Quinze dias depois veio pedir--me para não interpretar mal as suas palavras, que só não queria era que eu ficasse a viver o passado.

Quando a juíza concluiu que não estava doente, foi uma vitória?

Sim, claro, deu-me algum alento. Desde aí nunca mais fui ao médico.

Foi mais importante isso ou a principal vitória será quando forem descobertos os responsáveis?

Quando forem descobertos os responsáveis, eu não tenho ilusões: isto vai acompanhar-me para o resto da vida.

Como descreve o que lhe aconteceu?

É estranho, durante os quase três meses que estive "preso" fui visto apenas uma hora e cinco minutos. Isto revela tudo. Aqueles homens são cartomantes da mente, não são médicos.

Como assim?

Dão a mesma resposta a todos e acertam na maior parte das vezes, porque de facto a maioria dos que lá vão parar são mesmo doentes.

No "i"

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Empresa paga 510 euros a enfermeiros mas recebe mais do dobro



O Centro Hospitalar do Médio Tejo paga 1200 euros mensais por profissional, mas estes só recebem 3,1 euros por hora

É, até aqui, o salário mais baixo pago a um enfermeiro por uma empresa: 3,1 euros por hora, ainda sem descontos. E há oito enfermeiros no Centro Hospitalar do Médio Tejo a receber estes valores, na maioria dos casos para trabalhar na urgência de Abrantes. A empresa está a receber 1200 euros euros por mês, mas a penas paga 510. Apesar de estarem em curso centenas de contratações no SNS, o recurso às prestações de serviços mantém-se e por valores cada vez mais baixos, que rondam os cinco euros à hora, este valor já é menos 50% do que o valor de tabela.

De acordo com o contrato de trabalho entre a empresa Sucesso 24 Horas e estes profissionais, a que o DN teve acesso, os enfermeiros têm de trabalhar 40 horas por semana para receber estas verbas sem descontos e sem subsídio de refeições, um valor recorde pago por estas empresas.

Ver em "DN"