sábado, 25 de outubro de 2014

Homem que foi internado sem ser louco conta história na primeira pessoa



O homem que esteve quase três meses internado na ala psiquiátrica do Egas Moniz deu uma entrevista ao i, por considerar que é preciso um rosto para que algo mude.

Como é que foi estar dentro de uma ala psiquiátrica durante meses sabendo que não estava doente?

Em primeiro lugar estava num hospital e ninguém me dizia do que é que eu padecia, nunca me foi mostrado nenhum relatório a dizer o porquê de eu ter sido internado compulsivamente. Isso foi o pior.

Mas percebeu pelo ambiente que o que estaria em causa seria uma alegada doença mental?

Naturalmente. Desde há muito tempo que há familiares que me dizem que eu tenho um problema...

Porque é que acha que isso acontece?

Eu trabalhava de madrugada até ser internado, porque a equipa que eu geria estava espalhada pelo mundo inteiro e eu não tinha horas. Estava sempre ligado e mal havia um toque no computador eu acordava. E isso contribuiu para a criação de uma imagem de que eu não estava bem.

Culpa os seus familiares mais próximos por terem pedido o seu internamento?

Não, o problema aqui não está no até ao internamento. Isso é do foro privado e acredito que o tenham feito por preocupação. O problema para mim vem a seguir e prende-se com a forma como eu sou internado sem qualquer avaliação médica.

Quando diz que não tinha horas é porque trabalhava ao computador - fazia jogos - e não cumpria um horário normal...

Sim, trabalhava com uma empresa sueca, desde que arranjei um sistema em que peguei em scripts deles e gerei uma nova fórmula de game play nos jogos deles. Ou seja, em vez de termos coisas que aconteciam por probabilidade eu fiz cadeias dinâmicas que estavam continuamente a ocorrer por baixo do jogo base e que faziam com que este fosse sempre diferente, mas plausível mediante as histórias. E começaram-se a juntar a mim pessoas de outros países, mais talentosas que eu. Esta minha ideia começou a ter sucesso e às tantas a empresa ofereceu-me a possibilidade de fazer um jogo de estratégia.

Consegue agora perceber o que aconteceu até ao dia em que a PSP o foi buscar? Tudo começa quando a minha cunhada fala com uma médica amiga dela. Uma espécie de cunha?

Acho que sim, não tenho provas de que foi mesmo uma cunha. Mas os documentos referem que foi ela que descreveu o meu caso a uma colega. A forma como tudo foi conduzido indica isso.

Confirma que nunca foi visto por nenhum médico até a PSP o ir buscar a casa...

Nunca.

Quando chega acompanhado da PSP ao Hospital de São José o que é que lhe passava pela cabeça?

Não sei. Lembro-me de a médica que me recebeu ter posto a mão em cima das minhas e dizer-me: "Vamos ser amigos, Carlos?" Não achei nada daquilo normal, entenderia se ela estivesse a falar com uma criança, não comigo, que tinha 41 anos e estava bem. Naquele momento era eu que estava a achá-la louca. Rebati esta situação e ainda me foi perguntado: "Ah, não quer? Porquê?" Não sabia o que responder.

Esta médica escreveu que não viu qualquer sinal de doença, mas deu seguimento ao internamento. Quando é transferido para o Egas Moniz percebeu que uma das médicas que lá estava era a tal conhecida da sua cunhada?

Não, nunca me apercebi de nada. Não a conhecia. E nem sabia quem é que tinha feito a informação clínica do meu caso, não sabia de nada.

Quando começou a dizer que não estava doente o que é que é que lhe diziam?

O enfermeiro que me recebeu, por exemplo, respondeu-me: "Está bem, Carlos. A gente daqui a 15 dias falamos para ver se continuas a achar o mesmo..." Desde o início que diziam: "Todos dizem o mesmo, você precisa de ser tratado."

Desconfiou de si logo nessa altura?

Não tive dúvidas nenhumas e quanto mais pessoas via contra mim, mais força tinha. Um amigo meu dizia-me que se eu sobrevivesse àquilo seria uma fortaleza mental. Lá dentro qualquer um dá em maluco.

Como é que se refugiava?

Agarrei-me a rotinas, fazia tudo à mesma hora e levantava-me cedo. Decorava os dias da semana, as horas e tentava não vegetar. Tinha noção de que não podia perder as referências, isso era perigoso.

Deitava os comprimidos fora...

Sim, fi-lo até poder. Fui apanhado a primeira vez por esse enfermeiro e aí, como eu era muito ajuizadinho, ele limitou-se a dar-me de novo os comprimidos.

À medicação intramuscular é que não conseguia fugir...

Quinze dias após entrar deram-me Risperdal Consta, que é muito pesado. E deram-me, não por eu andar a deitar os outros comprimidos fora, mas porque era medicação complementar. A solução para eu tomar os comprimidos passou por moê--los e darem-mos na água.

E é quando começa a tomar toda a medicação que começa a ficar mais em baixo...

Sim, até aí andava normal sem qualquer medicação. Eles é que não sabiam.

Quer um apuramento de responsabilidades?

Claro. Há cinco médicos que terão de responder por esta situação.

E a sua cunhada coloca-a no rol dos médicos ou no dos familiares?

Essa pessoa não me via há mais de 15 meses. Entra no lote dos médicos porque também tem de respeitar a sua ética profissional e não agir com base em imagens feitas.

Algum médico tentou demovê-lo de agir?

Quando saí do internamento e fui levar as injecções no ambulatório, estava já a ser seguido por um outro médico. Esse já tinha algum sentido crítico e percebeu que tinha de negociar comigo, mas também sentia que não podia cessar o tratamento porque estava inserido na equipa médica que me medicou.

Mas que tipo de negociação?

Em Abril disse-lhe que não podia continuar, estava de rastos, e que a minha vida estava destruída. E ele disse-me: "Tiro-lhe as injecções, mas esquece todo este caso..." Quinze dias depois veio pedir--me para não interpretar mal as suas palavras, que só não queria era que eu ficasse a viver o passado.

Quando a juíza concluiu que não estava doente, foi uma vitória?

Sim, claro, deu-me algum alento. Desde aí nunca mais fui ao médico.

Foi mais importante isso ou a principal vitória será quando forem descobertos os responsáveis?

Quando forem descobertos os responsáveis, eu não tenho ilusões: isto vai acompanhar-me para o resto da vida.

Como descreve o que lhe aconteceu?

É estranho, durante os quase três meses que estive "preso" fui visto apenas uma hora e cinco minutos. Isto revela tudo. Aqueles homens são cartomantes da mente, não são médicos.

Como assim?

Dão a mesma resposta a todos e acertam na maior parte das vezes, porque de facto a maioria dos que lá vão parar são mesmo doentes.

No "i"

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Empresa paga 510 euros a enfermeiros mas recebe mais do dobro



O Centro Hospitalar do Médio Tejo paga 1200 euros mensais por profissional, mas estes só recebem 3,1 euros por hora

É, até aqui, o salário mais baixo pago a um enfermeiro por uma empresa: 3,1 euros por hora, ainda sem descontos. E há oito enfermeiros no Centro Hospitalar do Médio Tejo a receber estes valores, na maioria dos casos para trabalhar na urgência de Abrantes. A empresa está a receber 1200 euros euros por mês, mas a penas paga 510. Apesar de estarem em curso centenas de contratações no SNS, o recurso às prestações de serviços mantém-se e por valores cada vez mais baixos, que rondam os cinco euros à hora, este valor já é menos 50% do que o valor de tabela.

De acordo com o contrato de trabalho entre a empresa Sucesso 24 Horas e estes profissionais, a que o DN teve acesso, os enfermeiros têm de trabalhar 40 horas por semana para receber estas verbas sem descontos e sem subsídio de refeições, um valor recorde pago por estas empresas.

Ver em "DN"

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

«Mesmo em tempo de crise investir em Saúde Pública é rentável»



Os efeitos as políticas de austeridade do sector da saúde foram «desastrosos» sobretudo porque ocorrerem numa altura em que os cidadãos mais precisam de cuidados. A ideia é defendida pelo investigador inglês, David Stuckler, que considera «vantajoso» o investimento em Saúde Pública, mesmo durante as crises económicas

«Mesmo em tempo de crise investir em Saúde Pública é rentável», afirmou, no Porto, David Stuckler, sociólogo e investigador da Universidade de Oxford (Inglaterra), defendendo que, muito embora a recessão seja prejudicial, no caso da saúde «as medidas de austeridade podem matar».

Convidado a falar sobre The Body Economic: Why Austerity Kills (exactamente o título da publicação de que é co-autor e que é muito crítica em relação às políticas de austeridade no sector da Saúde), no âmbito do 6º Encontro Nacional da Clínica de Ambulatório VIH, Hospitais e Dia link o também professor de Política Económica e Saúde Pública da Universidade de Oxford advertiu: «Os políticos falam incessantemente acerca do sísmico impacto económico e social da recessão, mas muitos continuaram a ignorar os seus efeitos desastrosos na saúde das pessoas». Aliás, para David Stuckler, nos últimos três anos, as políticas adoptadas neste sector «exacerbaram esses efeitos em muitos países, sobretudo nos que adoptaram severas medidas de austeridade», permitindo «cortes em programas sociais na altura em que os cidadãos mais precisavam deles».

Segundo Stuckler, que acompanhou particularmente a situação da Grécia, desses cortes resultou, em muitos países - como de resto o investigador denuncia no The Body Econoimic, edição que mereceu já destaque na revista The Lancet –- «na transformação da sua recessão em verdadeiras epidemias», «arruinando ou extinguindo milhares de vidas num disparatado esforço para equilibrar o orçamento e os mercados financeiros».

(...)

Ler artigo completo aqui

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Trabalhadoras e trabalhadores britânicos da saúde entram em greve



Nesta segunda-feira (13) milhares de enfermeiros, auxiliares e pessoal de ambulâncias somaram-se à primeira greve em 30 anos do setor de saúde britânico em reivindicação de aumento salarial, convocados por centrais sindicais.

Os dirigentes sindicais acordaram manter em funcionamento os serviços de emergência, destacou a rede pública de rádio e televisão BBC.

Meios de comunicação locais denunciaram as tentativas do governo do premiê conservador, David Cameron, de privatizar o Serviço Nacional de Saúde, considerado uma das joias do estado de bem-estar do Reino Unido.

A paralisação das atividades foi organizada por sete sindicatos do setor na Inglaterra e por dois na Irlanda do Norte.

O Exército e a Polícia indicaram que ajudariam na atenção de casos de urgência médica durante a greve, declara a BBC.

A redução ou eliminação de subsídios ao setor da saúde faz parte dos planos de austeridade do executivo de Cameron desde sua chegada ao poder em maio de 2010.

Retirado daqui

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ébola: crónica de un despropósito anunciado



"La enfermera infectada se enteró de que tenía ébola... ¡leyendo prensa digital en el móvil!"

La auxiliar de enfermería infectada por ébola se enteró de que estaba contagiada de ébola a través de los medios de comunicación, según ha afirmado ella misma en una entrevista telefónica concedida al programa de televisión Las Mañanas de Cuatro, dirgido por Jesús Cintora.

La mujer supo de la enfermedad que padecía a través de su teléfono móvil, al ver en las noticias que la prueba que le habían realizado había dado positivo. Es decir, el gobierno informó antes a la prensa que a la propia afectada. Es el colmo del despropósito.

"No quisieron darme los resultados y después de verlo en el móvil, yo ya no quise preguntar", ha dicho la mujer. "No hace falta preguntar nada cuando te meten en una cápsula de aislamiento". Además, la sanitaria asegura que ninguna autoridad ha hablado con ella.

Estamos en manos de auténticos ineptos, altamente peligrosos para la salud pública.

Original

Coordinadora Antiprivatización de la Sanidad: Lo ocurrido es en parte resultado del proceso de deterioro, desmantelamiento y privatización de la sanidad, que se viene realizando ininterrumpidamente desde 2005

«Ahora podemos añadir lo siguiente:

1º El desmantelamiento de la planta sexta, en la que se ubicaba el centro de referencia para emergencias epidémicas, supuso la dispersión de todo el personal sanitario debidamente formado y entrenado en la aplicación de protocolos para el adecuado tratamiento y aislamiento de enfermedades de alto riesgo de contagio. De todo el citado personal, sólo queda ahora una enfermera en turno de mañana y otra en el de tarde.

2º La planta sexta se abre para ingresar al primer paciente de Ébola tras impartir al personal sanitario un curso de menos de una hora en el que se explicaba como ponerse y quitarse el traje. Tras el ingreso del segundo enfermo se imparte otro curso de la misma duración en el que se añaden algunas nociones acerca del manejo de residuos.

3º Dado que se desconocen exactamente los mecanismos de transmisión – y, por ejemplo la distancia a la cual una gota de saliva puede ser o no contagiosa, los protocolos internacionales aconsejan las más altas medidas de aislamiento-. Los trajes de aislamiento que está utilizando el personal sanitario son los de “riesgo biológico 3”, menos herméticos – porque están fabricados con material más poroso y en los que las gafas no están selladas con el gorro - que “los de riesgo biológico 4” usados en otros países.

4º Por las mismas razones, en otros países se han establecido protocolos para el seguimiento de las personas que han estado en contacto con los enfermos debe ser estricto durante los 21 días del periodo de incubación de la enfermedad, a quienes no se les permite, por ejemplo, irse de vacaciones.

5º Denunciamos que la Unión Europea, ante la epidemia de Ébola en países ricos en materias primas y pobrísimos en recursos sanitarios – lejos de enviar ayuda – a lo que se ha dedicado es a blindar aún más sus fronteras ante la población inmigrante. Más vergonzosa aún, si cabe es la decisión de EEUU de enviar 3.000 soldados – sin experiencia sanitaria documentada- para “combatir la epidemia”. Ante tanto cinismo y menosprecio de la vida de las personas por parte de las grandes potencias, destaca la decisión de Cuba – un país pobre de once millones de habitantes – de enviar 165 médicos a Sierra Leona.

6º Ante una epidemia de la gravedad de ésta y que ha saltado ya a Europa y a EE.UU., llama poderosamente la atención que no se hayan publicado estudios pormenorizados sobre el foco inicial de una infección tan virulenta y letal. Apuntamos al respecto la coincidencia de este brote epidémico con la existencia de un laboratorio en el hospital de Kenema, en Sierra Leona, que estaba trabajando sobre el virus del Ébola y que colabora con el Instituto de Investigación Médica de Enfermedades Infecciosas de la Armada de EE.UU, sobre armas biológicas.[2]

Desde CAS Madrid exigimos la depuración inmediata de responsabilidades entre todos los políticos y gestores que han tomado las decisiones de repatriar a los pacientes infectados, así como de gestión de la atención, hechos que han puesto en riesgo gravemente la salud de trabajadores y población, por lo que la única postura decente sería reconocer sus errores y presentar la dimisión.

Por otra parte, nos reafirmarnos en nuestra denuncia de que lo ocurrido es en parte resultado del proceso de deterioro, desmantelamiento y privatización de la sanidad, que se viene realizando ininterrumpidamente desde 2005 en esta comunidad autónoma, y que pese a informaciones interesadas, en ningún momento se ha paralizado. (...)»

Ver texto completo aqui

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Por todo o país há falta de enfermeiros, o resultado é trabalhar mais e/ou fechar serviços...



1. Por todo o País há unidades com falta de profissionais qualificados. A solução é trabalhar mais ou ter menos doentes Dois doentes críticos a precisar de ventilação não tinham vaga na unidade de cuidados intensivos do Hospital Garcia do Orta, no domingo. A solução, para o doente do foro cardíaco e outro com problemas respiratórios, foi ficar em camas ligadas ao serviço de urgência, um deles com recurso a um ventilador portátil.

Os cuidados e a segurança nesta unidade não são as mesmas, mas a falta de enfermeiros obrigou ao fecho de duas das oito camas de cuidados críticos. Todo o País se depara com falta de camas nos cuidados intensivos e sobretudo de profissionais qualificados. No Garcia de Orta, o fecho foi a solução mais acertada perante riscos de segurança e qualidade da resposta, dizem vários especialistas. Mas há hospitais onde isso se tem evitado com médicos a fazer vários turnos de 24 horas e os enfermeiros turnos sucessivos. Uma sobrecarga que também ela pode afetar os cuidados e trazer riscos.

daqui

2. Relativamente ao problema da saúde mental, os responsáveis (os coordenadores do Observatório Português dos Sistemas de Saúde - OPSS) mostraram-se particularmente preocupados com a falta de recursos humanos para cuidar destes doentes e com o tempo de espera entre o aparecimento dos sintomas e o início dos tratamentos.

O tempo que medeia o início dos sintomas, a primeira consulta e o começo dos tratamentos "está acima de todas as médias europeias" e está a aumentar, disse, considerando este um dado de "enorme importância que precisa de ser considerado".

Ana Escoval apontou ainda o facto de os hospitais serem financiados em função do número de camas, ficando sem meios para fazer o acompanhamento domiciliário, os tratamentos na comunidade.

Para ilustrar a falta de recursos humanos nesta área e a incapacidade de contratar alguém, a mesma responsável contou que num hospital do Norte foi dada ordem para encerrar o serviço de psiquiatria no mês de Agosto.

O serviço só não fechou, porque os profissionais se organizaram e voluntariaram para conseguir manter a unidade em funcionamento, não acatando a ordem superior de encerramento, contou.

Para a responsável este é um dos casos que se passam nas unidades do Serviço Nacional de Saúde e que são sintomáticos do estado de exaustão em que se encontram os profissionais e para o qual as ordens dos médicos e dos enfermeiros têm vindo a alertar.

Manuel Lopes salientou que os serviços de saúde mental e de psiquiatria que o país tem são "muito maus", frisando que "em toda a região sul não há resposta nenhuma para a área da saúde mental". (...)

aqui

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Governo é que a banalizou a greve



João Luís Barreto Guimarães
Mas vamos ao assunto de hoje. Os portugueses estão habituados a sofrer em silêncio. Já me tenho perguntado por que razão não saem mais vezes à rua para expressar o seu descontentamento. Como bem escreveu o extraordinário poeta inglês William Blake, "sem contrários não há progressão" e seria de esperar de um Governo honesto uma maior disponibilidade para cumprir promessas eleitorais utilizadas para enganar os eleitores que os elegeram. Há dias, o ministro da Saúde queixava-se de que os enfermeiros banalizaram a greve. Banalizaram a greve? O Governo é que a banalizou, ao ignorar com indiferença e autismo as sucessivas greves que foram sucedendo. Antigamente, uma greve "inscrevia", para usar a feliz expressão do extraordinário filósofo português José Gil. Agora, com a "não-inscrição", o Governo é inabalavelmente indiferente ao único meio que os eleitores possuíam para exprimir a sua indignação até chegarem as eleições seguintes. Hoje, o exercício democrático da greve já não colhe junto ao poder porque este tratou de banalizar essa espécie de voto de indignação. Como bem previu o extraordinário romancista britânico Óscar Wilde, "Democracia quer simplesmente dizer o desencanto do povo, pelo povo, para o povo". Se Paulo Macedo exercesse o poder por períodos de dois anos apenas, por exemplo, tenho a certeza de que a conversinha seria outra. Ora, aí está uma ideia a incluir na anunciada revisão da Lei Eleitoral: políticos à rédea curta com legislaturas de dois anos. Isso, e a possibilidade de os votos em branco elegerem cadeiras vazias, claro! Se eu estiver a dizer alguma asneira, por favor corrijam-me.

Vivemos actualmente "dias que nos insultam", como escreveu o extraordinário poeta português Alexandre O"Neill, nos quais, nas palavras do extraordinário filósofo francês Gilles Lipovetsky, "o elevador social avariou". Para a maioria dos portugueses, a "vida é uma casa em ruínas", como bem poetou a extraordinária poeta galesa Menna Elfyn, em parte porque a qualidade dos nossos governantes é péssima: se algum de nós, na sua área profissional, fosse responsável por erros da magnitude e consequências dos cometidos na Justiça e na Educação, seria liminarmente despedido. Aqui, ninguém tira consequências. Os governantes portugueses têm uma admirável apetência para se colar ao poder. Nisso, como escreveu o extraordinário poeta russo, naturalizado norte-americano, Joseph Brodsky, a "história, sem dúvida, está destinada a repetir-se".

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