terça-feira, 12 de março de 2013

Doentes mentais estão a abandonar tratamento por falta de dinheiro



Lucian Freud

Número de doentes que está a faltar a consultas ou a tratamento é "maior do que o habitual".

As dificuldades económicas estão a fazer com que muitos doentes não consigam suportar os custos das deslocações e faltem às consultas de saúde mental. Há também cada vez mais doentes a admitir que não tem dinheiro para a medicação prescrita. As assistentes sociais alertam para um aumento anormal e preocupante do número de queixas de doentes que se dizem impossibilitados de prosseguir com o tratamento e o coordenador do Plano Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde avisa que, privados de tratamento, estes doentes correm sérios riscos.

"Temos cada vez mais informações sobre doentes que avisam que não vão comparecer às consultas por falta de dinheiro para o transporte", avisa Álvaro Carvalho, coordenador do Plano Nacional para a Saúde Mental da Direcção-Geral de Saúde. Fernanda Rodrigues, presidente da direcção nacional da Associação dos Profissionais de Serviço Social, confirma esta realidade, acrescenta que estes doentes estão também a abandonar a medicação pelos mesmos motivos e sublinha que, apesar de não existirem dados sobre o número de pessoas afectadas, o fenómeno "é preocupante".

"Estamos a registar uma falta de comparência às consultas que não é habitual. As assistentes sociais que trabalham na área da saúde mental referem que o principal motivo apresentado por estes doentes é o facto de não conseguirem pagar as deslocações e senhas de transporte. Por outro lado, o mesmo se passa na aquisição de medicamentos, com muitas pessoas a admitir que interromperam a terapêutica ou a comprar só parte da medicação prescrita, com escolhas que são ditadas por razões financeiras", alerta Fernanda Rodrigues. As consequências, refere, "já estão a sentir-se com o agravamento dos problemas de saúde destas pessoas". "Muitas vezes conseguir apenas que estas pessoas aceitem ser tratadas já não é fácil", lamenta.

Sobre as possíveis consequências de um abandono do tratamento Álvaro Carvalho não hesita em assumir que há riscos. "Sabe-se que um processo depressivo, por exemplo, e no caso de um tratamento estritamente farmacológico, precisa de um período mínimo de três meses e em média de seis meses para avaliação quando responde à medicação", explica. Por outro lado, em muitas situações, uma interrupção súbita da medicação pode ser muito prejudicial. Nos casos de depressão grave podemos assistir a um agravamento do problema e ao risco de suicídio. Há casos que podem ser controlados com um tratamento e que sem ele exigem internamento. Outro exemplo: os doentes com esquizofrenia precisam da medicação para ajudar a controlar uma série de manifestações desta patologia, mas precisam também de estar inseridos em programas de reabilitação psicossocial. Quando (e se) essa vertente do tratamento falha, por falta de dinheiro para se deslocarem para os locais onde têm estas respostas, estes doentes são afectados de forma grave e acabam remetidos para um perigoso isolamento.

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Notícia completa Público

segunda-feira, 11 de março de 2013

Hospitais da Galiza colapsados pelos cortes



Pouco depois da morte que nestes momentos investiga a procuradoria de justiça, a de umha mulher de 81 anos que esperou por três horas nas urgências do Complexo Hospitalar Universitário de Vigo (CHUVI) -o tempo que demorou a morrer, a CIG denuncia um colapso generalizado também em Ferrol.

Nom é, no entanto, umha denúncia que chegue de a cavalo do acontecido em Vigo: já nas semanas anteriores diferentes entidades criticárom fortes problemas em todos os hospitais galegos, com destaque para as urgências do Complexo Hospitalar Universitário da Corunha (CHUAC). O próprio presidente da Junta da Galiza, Alberto Nunes Feijó, tivo que admitir no começo do mês de fevereiro que existia um "efeito de gargalo" nas urgências da Corunha, mas que estava "detectado".

Feijó aplicou nos últimos anos duros cortes orçamentários no sistema sanitário galego, que foi tristemente pioneiro na política de substituçom de apenas 10% das baixas de pessoal reformado. Porém, do governo autónomo, que reconhece o colapso, atribue-se este a um aumento do fluxo de doentes pola gripe.

Frente a isso, um dado chama à reflexom: num dos dias de maior colapso nas urgências corunhesas, a 5 de fevereiro, o aumento de doentes frente a um dia médio foi de apenas 12%.

Mulher morre em Vigo esperando a ser atendida

Após semanas de agravamento no habitual, notório e público colapso das urgências dos hospitais galegos atacados pola Junta, aconteceu a previsível desgraça.

Na noite da passada terça-feira (05/03) umha mulher idosa morreu logo de esperar por três horas atençom médica nas urgências do CHUVI. Segundo a gerência do centro hospitalar e a Junta da Galiza, a atençom médica terá funcionado normalmente porque a mulher nom apresentava um quadro psintomático que denotasse um perigo para a sua vida e, portanto, nom era aconselhado um tratamento prioritário diante doutros doentes que esperavam nessa altura.

Porém, mesmo suponhendo certo esse extremo, a Organizaçom Mundial da Saude indica que o tempo de espera máximo nas urgências é de umha hora. Em Vigo, umha pessoa cuja vida nom é considerada em risco imediato (isso é avaliado após umha entrevista de apenas uns segundos, normalmente com pessoal de enfermaria) aguarda mais de três horas nas urgências do hospital da maior cidade da Galiza. Neste caso, à espera de mais pormenores, a evoluçom desse estado nom mortal num quadro mortal, associado às três horas de espera, poderá ser a terrível sequência de factos por trás da morte acontecida em Vigo na terça-feira.

Por outro lado, em Vigo 25.000 pessoas estám à espera de receber atençom médica no hospital. Se nom fosse tam grave, pareceria até cómico que quase 5% da populaçom da área de inflência viguesa esteja nessas listas de espera. Sindicatos de diferentes coletivos associam esses números desorbitados à falta de meios humanos em relaçom aos cortes.

Para acrescentar mais ingredientes ao coquetel de cinismo, a direçom do hospital viguês alegava na noite de ontem (08/03) que a idosa morrera "subitamente". Sim: concretamente num prazo de três horas, em que nom recebeu qualquer atençom. Urgências também saturadas em Ferrol e na Corunha: gerências dizem que é pontual Agora, a CIG denuncia que também o Hospital Arquiteto Macide de Ferrol está muito acima das suas possibilidades. Segundo o sindicato, doentes estám "amontonados" em salas de espera, e igualmente a capacidade de trabalho das e dos profissionais médicos está ultrapassada, colocando em risco a atençom às pessoas doentes. Entre os dados que fornecem, asseguram que passado dia 4 de março até 40 pessoas esperavam no serviço de urgências em espera de serem ingressadas. "As situaçons de colapso som umha norma, em vez de excepcionais ou pontuais" como assegurou a Junta, tentando justificar a dramática situaçom nos centros hospitalares galegos. Afirmam nem há suficientes macas ou cadeiras para que todos e todas as doentes esperem as longas horas com um mínimo de dignidade.

Segundo a CIG, nom há meios humanos nem materiais suficientes para atender em condiçons de segurança o fluxo habitual de doentes em Ferrol.

Contodo, o caso mais escandaloso (até que aconteceu o falecemento de Vigo) foi o da Corunha, que está ultrapassado pola realidade há mais de um mês. Doentes esperando em bancos e até 35 pessoas que, simultaneamente, chegárom a esperar mais de 24h o seu ingresso no CHUAC som alguns dos dados que ponhem de manifesto o estado das urgências corunhesas. Atualmente está a alargar-se a área correspondente no complexo hospitalar, mas o aumento de espaço nom virá acompanhado de novas contrataçons, de forma que previsivelmente o problema terá (no mais otimista dos casos) umha muito leve melhoria.

Política de 'altas precoces'

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Artigo completo em Diário da Liberdade

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Serviço Nacional de Saúde não se vende, defende-se!



No dia 2 de Março saímos à rua! Saímos enquanto profissionais de saúde, enquanto utentes do SNS, enquanto cidadãos e cidadãs preocupados! Juntamo-nos a milhares de outras vozes, de outros sectores, para dizermos que a austeridade está a destruir o SNS. O SNS é um dos melhores serviços públicos que Portugal construiu. Desde a sua criação em 1976, o SNS permitiu a evolução dos principais indicadores de saúde, melhorando drasticamente a esperança média de vida e as taxas de mortalidade infantil, peri-natal e materna. O cenário antes comparável a um qualquer país de 3º mundo transformou-se num dos melhores serviços de Saúde em todo o mundo. No início da última década, o SNS era classificado pela Organização Mundial de Saúde como o 12º melhor serviço de saúde do mundo e isso dá-nos orgulho! O SNS é democracia e o mais importante factor de coesão social, porque permitiu que todos os portugueses possam ter acesso a uma saúde de qualidade, independentemente da origem social e capacidade económica. Na zona euro o SNS é dos que gasta menos em percentagem do PIB e com os melhores resultados, por isso dizemos: o SNS é sustentável!

A austeridade está a matar o SNS! O aumento das taxas moderadoras diminuiu a acessibilidade aos serviços de saúde. Nos hospitais faltam medicamentos para muitas doenças, dos quais dependem as vidas de muitos utentes, ao mesmo tempo que se começa a falar em racioná-los. A mortalidade infantil aumentou nos últimos meses e a mortalidade materna também! Fecham serviços de proximidade e instituições de qualidade reconhecida sem outra justificação que não seja a de poupar na saúde para gastar nos juros da dívida! Pioram a vida dos profissionais de saúde que são o coração do SNS, com cortes nos ordenados, aumentos de impostos e desemprego! O subfinanciamento do SNS está a estrangulá-lo e está já a pôr em causa a saúde da nossa população!

Juntamo-nos a 2 de Março na rua porque defendemos que se cumpra a Constituição da República Portuguesa: queremos um SNS universal, geral e tendencialmente gratuito! Queremos um SNS que aposte na prevenção e na promoção da saúde e que seja devidamente financiado! Juntamo-nos a 2 de Março na Maternidade Alfredo da Costa às 14h30m, um exemplo de qualidade e eficiência no SNS, porque a forma obscura e pouco transparente como a querem encerrar é um símbolo do que querem fazer ao SNS: fechar portas, atirando Portugal para o atraso social em que vivíamos antes de 1974!

Subscritores...

No Facebook

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

2 de Março. "o Povo é quem mais ordena"





Os locais das manifestações do 2 de Março:

• Aveiro: 16:00, Estação CP -> Praça da República

• Barcelona: 17:00, Consulado de Portugal, Ronda Sant Pere, 7

• Beja: 16:00 no Largo do Museu

• Boston: 18:00 na Boston Public Library (700, Boylston Street)

• Braga: 15:00 na Avenida Central

• Castelo Branco: 16:00 Pr. do Município

• Caldas da Rainha: 14:30 na Praça 25 de Abril

• Chaves: 16:00 no Largo das Freiras

• Coimbra: 15:00 Pr. República -> Pr. da Canção – Evento no Facebook Marés: dos reformados: 14:30 Arcos do Jardim: da cultura: entrada de carga do Gil Vicente

• Covilhã: 15:00 Pr. do Município

• Entroncamento: 16h, em frente à estação da CP

• Évora: 16:00 na Pr. Giraldo

• Faro: 16:00 - Largo do Carmo/Jardim Catarina Eufémia

• Funchal: 16:00 na Praça do Município

• Guarda: 16:00 na Pr. Velha à frente da Sé Catedral

• Horta: 10:00, Pr. da República

• Leiria: 16:00 na Fonte Luminosa

• Lisboa: 16:00 na Pr. Marquês de Pombal

(Maré Branca da Saúde: Rua Viriato): 14:30 na Maternidade Alfredo da Costa

- Maré de Educação: 14:00 no Minist. da Educação (Av. 5 de Outubro)

- Maré dos Reformados: 16:00 na APRe! (Associação de Aposentados, Reformados e Pensionistas – Av da Liberdade, junto ao monum. mortos da Grande Guerra; Mulheres em Marcha – 15h30 – edifício PT Picoas Maré Arco-Íris – 14h – R. Castilho)

• Londres: 15:00 na Embaixada Portuguesa em Londres (11, Belgrave Square, SW1X 8PP)

• Loulé: 16:00 no Mercado Municipal

• Marinha Grande: 15:00 Parque da Cerca

• Paris: 15:00 Consulado Geral de Portugal rue Georges Berger

• Ponta Delgada: 15:00 Largo 2 de Março -> Rua de Lisboa -> Campo de São Francisco -> Avenida Marginal -> Praça Vasco da Gama - > Portas da Cidade

• Portalegre: 16.30 horas na Praça da República

• Portimão: 16:00 Pr Manuel Teixeira Gomes (Casa Inglesa)

• Porto: 16:00 na Praça da Batalha - Evento no Facebook Marés no Porto: - Direitos humanos (SOS Racismo), às 16h na praça da Batalha; Cultura, às 16h, à porta do cinema Batalha, Educação, às 15h, junto à DREN (R. António Carneiro); Reformados (APRE), às 16h00, na praça da Batalha

•Tomar: 15:00 noJardim em frente ao Colégio

• Torres Novas: 14:00 Pr. 5 de Outubro

• Santarém: 15:00 no Centro de Emprego, Prc Alves Redol

• Setúbal: 16:00, Largo José Afonoso

• Viana do Castelo: 15:00 na Praça da República

• Vila Real: 16:00 Câmara Municipal

• Viseu: 16:00 Jardim Santa Cristina

Que se lixe a troika

Evento no Facebook

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Retrato social

Manuel Raposo

Vinhais, Fevereiro 2013: uma professora desempregada mata um filho de 12 anos e suicida-se depois. Porto, Janeiro 2013: uma imigrante com 25 anos, natural do Bangladesh, tenta atirar-se da ponte D. Luís com dois filhos de 1 ano e de 1 mês. Oeiras, Janeiro 2013: uma mãe divorciada mata os dois filhos, de 12 e 13 anos, e põe termo à vida. Alenquer, Dezembro 2012: uma imigrante brasileira de 32 anos pega fogo à casa e mata os dois filhos de 1 e 3 anos. Castro Marim, Agosto de 2012: uma dentista brasileira de 42 anos mata-se e aos dois filhos de 11 e 13 anos, regando a casa com gasolina e pegando-lhe fogo. Vila Pouca de Aguiar, Dezembro 2011: uma mulher de 34 anos suicida-se ao atirar-se de um viaduto com uma filha de 20 meses ao colo.

Em cada um dos casos foram assinalados: ou estados depressivos, ou dificuldades económicas, ou desemprego, ou desavenças familiares, ou violência conjugal, ou tudo junto.

Em declarações ao jornal "i" (29 Janeiro deste ano), o psicólogo Carlos Poiares afirma que está a haver um aumento destes casos, assim como dos homicídios conjugais e dos suicídios, e relaciona o facto com a crise económica e social, que classifica de “gravíssima”. O homicídio dos filhos, acrescenta, ocorre em situações em que as mães “não conseguem ver luz ao fundo do túnel”, actuando a crise como um rastilho do desespero.

Também o psiquiatra Pedro Afonso, em declarações ao Público feitas em Setembro do ano passado, a propósito do aumento do consumo de antidepressivos, não teve dúvidas em afirmar que há hoje “muito mais casos” de depressão decorrentes da crise económica. Com efeito, soube-se recentemente que o consumo de antidepressivos aumentou 7,6% em 2012, mais do que qualquer outro medicamento. Anteriormente, também um relatório do Infarmed de 2010 dava conta de que, nos dez anos anteriores, o consumo de antidepressivos crescera para mais do dobro.

O sofrimento pessoal, o desconchavo familiar, a morte como solução são sinais do colapso social que está em marcha. A crise com efeito, não se resume às finanças e à economia, como o poder quer dar a entender. É a própria civilização capitalista – cada vez mais iníqua, assente num sistema produtivo senil, incapaz de proporcionar bem estar à maioria da população – que está em causa.

Retirado de http://www.jornalmudardevida.net/

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

NÃO AO ROUBO DE UMA HORA DE TRABALHO!



Aos Assistentes Operacionais de Acção Médica - Comunicado do Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Centro:

«No dia 01-02-2013, na pessoa do Sr. Enfermeiro- director António Manuel Marques o STFPSCentro foi informado que, em especial no turno das 08.00h-16.00h, o sistema de controlo de assiduidade registaria somente 7 horas de trabalho diário, não sendo permitido proceder a picagens na hora de saída para almoço, nem de entrada após este período.

Justificando esta medida com o facto de não existir jornada continua para os assistentes operacionais ao contrário do que sucede com o pessoal de enfermagem apesar de nos turnos seguintes não se aplicar esta medida, mantendo-se como se de Jornada contínua se tratasse ou horário rígido.

Em face desta informação o STFPSCentro confrontou o enfermeiro director António Manuel Marques afirmando que a concretização desta orientação coloca em causa o direito ao horário de trabalho dos funcionários e, na prática, faz com que os trabalhadores trabalhem oito horas sendo-lhe averbadas somente 7h diárias, roubando-lhes a contagem de 1 hora diária de serviço porque careceria de autorização do enfermeiro-chefe. (…)

Ora, O STFPSCentro não pode deixar de condenar a ligeireza e total ilegalidade desta intenção, que é um desrespeito aos mais elementares direitos dos trabalhadores e da pessoa, pois o verdadeiro objectivo desta medida não é mais do que aumentar em 1 hora diária o horário de trabalho dos funcionários contando-lhes apenas sete horas poupando o Hospital muitos milhares de euros á custa dos trabalhadores que menos ganham.

Perante tudo isto, e sem prejuízo das iniciativas a desenvolver pelo Sindicato em conjunto com os trabalhadores o STFPS centro aconselha todos os Assistentes Operacionais de Acçao Médica que laboram por turnos a não proceder de forma diferente do que têm feito até aqui sem que sejam notificados por escrito da alteração de procedimento que é da responsabilidade do Conselho de administração dos CHUC.

A Direção do STFPSC»

Texto completo no STFPSC

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Um pouco de ternura e nada mais

por BAPTISTA-BASTOS

«(...) Pouco depois fui transferido para o Hospital Pulido Valente. Explicaram-me que, na Unidade de Cuidados Intermédios, dispunha de assistência assídua e especializada, e a minha miséria encontrava resposta na bondade, no carinho, no desvelo de um grupo de raparigas e de rapazes não só atento à medicação, procurando magoar-me o mínimo possível, com o furo nas veias débeis, como me lavavam, me limpavam, me cuidavam com a grandeza de quem não precisa de reciprocidade. A dimensão da humanidade na sua expressão acaso mais nobre. Sou-lhes eterno devedor.

Ao observá-los e à sua compassiva densidade, apreendi que os macacos sem fé e sem sonho, que nos governam, desejam não só dar cabo do Serviço Nacional de Saúde: eles querem, sobretudo, dissolver os laços de benevolência, essa ligação suave, decente e poderosa entre alma e coração, substância e essência que constituem a construção social e o espírito do SNS. O que são alianças de piedade e de solidariedade entre os que sofrem e os que cuidam, ajudam e amparam, eles ambicionam transformar em gélidas demonstrações profissionais, "justificadas" pelo dinheiro.

Estes que tais encontram, porventura, na maldita frase do banqueiro Ulrich ["eles aguentam, aguentam"] o mais sórdido apoio aos seus projectos de demolição social e ética. Estão do outro lado das coisas, ignoram a natureza concêntrica das grandes simpatias humanas. Têm o coração oco. Nada sabem dessa humanidade assustada, desvalida, a quem querem roubar o pouco que lhes resta, que sofre nas ruas, nos hospitais, que envelhece no pasmo de desconhecer o que lhes acontece. E ocorre-me a frase de Raul Brandão: "Apenas anseiam por um pouco de ternura e nada mais."»

Artigo completo no DN