quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A maior carga policial desde os anos 1990

Rui Viana Pereira, CADPP
Foto retirado do Movimento 15 Outubro (http://www.15deoutubro.net)


Segundo declarações de um elemento da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia (ASPP/PSP) ao Jornal de Notícias, os trabalhadores sofreram a maior carga policial verificada no centro de Lisboa desde 1990. No momento em que escrevemos estas linhas chegam-nos notícias de crianças, idosos, pessoas em cadeiras de rodas que foram agredidas a eito. Além da carga de bastonada e dos cães, a polícia fez vários disparos de armas de fogo na Av. D. Carlos (Lisboa), para onde fugiu uma parte dos manifestantes . O local da manifestação ficou deserto em poucos segundos, à excepção dos feridos que terão ficado para trás.

A polícia tenta justificar a evacuação à bastonada e a tiro de todos os manifestantes aglomerados em S. Bento (Lisboa) com o facto de ter sido agredida à pedrada por um pequeno grupo de manifestantes. Esta carga policial ocorre 24 horas depois de uma outra acção policial invulgarmente violenta de agressão aos estivadores, na zona da Expo (Lisboa) – com disparos de armas de fogo da polícia, como se deduz pelos vídeos disponíveis, e grande número de feridos. Tudo isto acontece pouco depois de o Governo ter concedido um aumento salarial de 10% para alguns sectores das forças de intervenção.

Nas manifestações anteriores, ao longo do último ano, os próprios manifestantes tomaram muitas vezes a iniciativa de conter as provocações individuais contra a polícia. Parece evidente que, perante a violência das medidas de austeridade – quer as previstas no Orçamento de Estado, quer as já postas em prática a todos os níveis da sociedade, das relações de trabalho e das funções sociais do Estado –, os trabalhadores presentes nesta manifestação desistiram de demonstram qualquer «simpatia» com as forças de repressão. Por outras palavras: terão compreendido que o Governo declarou o estado de guerra aos trabalhadores.

Está em marcha uma política deliberada de intimidação brutal dos trabalhadores. Quer isto dizer que se avizinham novas e mais duras políticas de austeridade Os acontecimentos de hoje em S. Bento, Lisboa, não podem ser vistos como uma simples carga policial descontrolada. Existe nesta acção um propósito deliberado por parte dos poderes públicos. A demonstração deste facto é-nos feito pelos próprios porta-vozes das forças da repressão:

Se a polícia, como afirmam os seus porta-vozes, esteve sujeita durante várias horas a provocações e agressões com pedras, antes de nos compadecermos com a sua sorte temos de fazer a pergunta lógica: porque é que as chefias ordenaram uma carga policial ao fim de várias horas? Porque não meia hora antes? Ou 5 horas antes? Porquê a violência extrema demonstrada, inclusive com disparos de armas de fogo, e não apenas a detenção de alguns manifestantes, como foi prática da polícia em ocasiões anteriores? As razões têm de ser forçosamente políticas, e não «técnicas» ou militares.

Como se tem visto nos protestos e concentrações dos estivadores de Lisboa, uma parte dos sectores do trabalho em Portugal já não consegue suportar mansamente a agressão da austeridade e desemprego, e está disposta a resistir. Daí o comportamento brutal da polícia contra os estivadores, 24 horas antes da manifestação. Existe aqui uma mensagem claramente escrita, e escrita com sangue: o Governo está disposto a chegar a extremos de violência que trazem à memória o Maio de 1886.

Hoje, após várias horas de provocações, os poderes públicos terão compreendido uma coisa: já não são só os estivadores que estão dispostos a levar ao extremo a sua luta. Normalmente, a maioria dos manifestantes teria dispersado ao mais pequeno sinal de perturbação da paz – hoje, esses mesmos manifestantes permaneceram em bloco por detrás das primeiras linhas que enfrentavam a polícia, apesar de muitos deles serem mulheres, idosos, inválidos, crianças. A súbita carga policial, ao fim de várias horas frente a frente, denuncia o momento em que os poderes públicos terão compreendido que estavam perante uma nova fase de luta. Nesse momento consideraram que tinham de entregar uma mensagem intimidatória definitiva – agora ou nunca.

O Governo prepara-se para exacerbar as medidas de austeridade a níveis nunca sonhados pela população. Esta intenção é denunciada claramente no OE (Orçamento de Estado). O mesmo OE denuncia a existência de novos e avultados «buracos negros» nas contas públicas, que só poderão ser preenchidos (na óptica dos poderes instituídos) por redobradas agressões aos interesses dos trabalhadores. É de prever que tudo isso venha a acontecer a partir de Janeiro. Nessa altura a indignação e a determinação de luta estender-se-ão a muito mais sectores da população, que já nada terão a perder em resistir.

Esta carga policial é um aviso claro do Governo. Demonstra a sua intenção de utilizar meios extremos de repressão e agressão para impedir uma resposta eficaz às medidas que prepara.

Resta saber se os trabalhadores se mobilizarão ou não para, já amanhã, responderem também eles com uma declaração de intenções clara, demonstrando que nem se deixam intimidar nem aceitam a utilização da brutalidade policial contra as suas reivindicações.

Original aqui

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

14N – GREVE GERAL NACIONAL – STRIKE, HUELGA, SCIOPERO, STREIKE, GREV, VAGA, STRAJK



«Dia 14 de Novembro, na Greve Geral, não estarás sozinho! Não estaremos sós! Em vários países da Europa, seremos muitos e muitas a parar de produzir, a parar de comprar e de consumir. Seremos muitos e muitas, por todo o planeta, a expressar a vontade de parar o curso destas (des)governações suicidárias, apenas baseadas na austeridade, no cumprimento cego de medidas de corte orçamental e no desinvestimento nas pessoas, a mando de sanguessugas dos grandes grupos financeiros.

A Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Chipre, Malta, Eslovénia, Polónia, República Checa, juntam-se agora vários países da América Latina, nesta imensa jornada de luta. É a resposta internacional de trabalhadores e trabalhadoras, de cidadãos e cidadãs de diversos países que sentem que algo de extraordinário deve ser feito, em nome já não apenas do presente, mas também do futuro das próximas gerações. As políticas de violência austeritária ilimitada, de restrição dos direitos laborais e cívicos e de fragilização da democracia e da liberdade são um ataque à escala global que tem de ter uma resposta ampla e internacional. E nesta Greve Geral juntam-se, pela primeira vez, as vozes de cada um de nós, na Europa, no mundo, num coro de protesto e de busca de alternativas.

Fazer greve no dia 14 de Novembro, para além de um legítimo direito dos trabalhadores e trabalhadoras, é uma exigência de cidadania. Fazer greve nesse dia é muito mais do que não comparecer no local de trabalho. Fazer greve pode ser também um acto de reflexão, de discussão e de criação de alternativas. Não paramos apenas porque estamos fartos destas políticas que afectam sempre as mesmas pessoas, a mando da Troika, que já nem consensualmente reclama austeridade como solução. Paramos porque queremos mesmo mudar de direcção. Porque queremos construir soluções onde todos e todas possam viver em democracia, com direitos iguais e com uma esperança no futuro. Paramos porque queremos parar este violentíssimo Orçamento de Estado, aprovado por deputados que fogem do Povo e proposto por governantes que se escondem do Povo que dizem representar.

E porque uma greve geral não é uma greve contra o nosso patrão, é importante que todos, trabalhadores e trabalhadoras, comerciantes e pequenos ou médios empresários e empresárias, parem o país para mostrar a este governo que já basta! E porque nem todos os cidadãos e cidadãs têm direitos ou garantias laborais que lhes permitam participar nesta Greve Geral, apelamos a que, mesmo assim, se manifestem, de algum modo, solidários com ela: que usem braçadeiras pretas nesse dia, que debatam com colegas, vizinhos, amigos. E que se juntem às diversas manifestações de rua, que convergirão, numa só, para Assembleia da República.

Estaremos na rua a partir das 10h00, na Praça Duque de Saldanha, num piquete móvel que irá percorrer as ruas de Lisboa. A partir das 14h00 concentrar-nos-emos na Embaixada de Espanha, no início da Rua do Salitre (junto à Av. da Liberdade), para demonstrar a solidariedade internacional do protesto. Daí partiremos em direcção à Assembleia da República.

A Greve Geral é uma das nossas armas, é uma forma de dizermos: BASTA! Não estaremos sós!

Ana Nicolau, Bruno Neto, Joana Manuel, João Camargo, Luís Bernardo, Magda Alves, Marco Marques Neves, Mariana Avelãs, Paulo Raposo, Rita Veloso» Carta via Precários Inflexíveis

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

CARTA ABERTA A ANGELA MERKEL



Cara chanceler Merkel,

Antes de mais, gostaríamos de referir que nos dirigimos a si apenas como chanceler da Alemanha. Não votámos em si e não reconhecemos que haja uma chanceler da Europa. Nesse sentido, nós, subscritores e subscritoras desta carta aberta, vimos por este meio escrever-lhe na qualidade de cidadãos e cidadãs. Cidadãos e cidadãs de um país que pretende visitar no próximo dia 12 de Novembro, assim como cidadãos e cidadãs solidários com a situação de todos os países atacados pela austeridade. Pelo carácter da visita anunciada e perante a grave situação económica e social vivida em Portugal, afirmamos que não é bem-vinda. A senhora chanceler deve ser considerada persona non grata em território português porque vem, claramente, interferir nas decisões do Estado Português sem ter sido democraticamente mandatada por quem aqui vive.

Mesmo assim, como o nosso governo há algum tempo deixou de obedecer às leis deste país e à Constituição da República, dirigimos esta carta directamente a si. A presença de vários grandes empresários na sua comitiva é um ultraje. Sob o disfarce de "investimento estrangeiro", a senhora chanceler trará consigo uma série de pessoas que vêm observar as ruínas em que a sua política deixou a economia portuguesa, além da grega, da irlandesa, da italiana e da espanhola. A sua comitiva junta não só quem coagiu o Estado Português, com a conivência do governo, a privatizar o seu património e bens mais preciosos, como potenciais beneficiários desse património e de bens públicos, comprando-os hoje a preço de saldo.

Esta interpelação não pode nem deve ser vista como uma qualquer reivindicação nacionalista ou chauvinista – é uma interpelação que se dirige especificamente a si, enquanto promotora máxima da doutrina neoliberal que está a arruinar a Europa. Tão pouco interpelamos o povo alemão, que tem toda a legitimidade democrática para eleger quem quiser para os seus cargos representativos. No entanto, neste país onde vivemos, o seu nome nunca esteve em nenhuma urna. Não a elegemos. Como tal, não lhe reconhecemos o direito de nos representar e menos ainda de tomar decisões políticas em nosso nome.

E não estamos sozinhos. No próximo dia 14 de Novembro, dois dias depois da sua anunciada visita, erguer-nos-emos com outros povos irmãos numa greve geral que inclui muitos países europeus. Será uma greve contra governos que traíram e traem a confiança depositada neles pelas cidadãs e cidadãos, uma greve contra a austeridade conduzida por eles. Mas não se iluda, senhora chanceler. Também será uma greve contra a austeridade imposta pela troika e por todos aqueles que a pretendem transformar em regime autoritário. Será, portanto, uma greve também contra si. E se saudamos os nossos povos irmãos da Grécia, de Espanha, de Itália, do Chipre e de Malta, saudamos também o povo alemão que sofre connosco. Sabemos bem que o Wirtschaftswunder, o “milagre económico” alemão, foi construído com base em perdões sucessivos da dívida alemã por parte dos seus principais credores. Sabemos que a suposta pujança económica alemã actual é construída à custa de uma brutal repressão salarial que dura há mais de dez anos e da criação massiva de trabalho precário, temporário e mal-remunerado, que aflige boa parte do povo alemão. Isto mostra também qual é a perspectiva que a senhora Merkel tem para a Alemanha.

É plausível que não nos responda. E é provável que o governo português, subserviente, fraco e débil, a receba entre flores e aplausos. Mas a verdade, senhora chanceler, é que a maioria da população portuguesa desaprova cabalmente a forma como este governo, sustentado pela troika e por si, está a destruir o país. Mesmo que escolha um percurso secreto e um aeroporto privado, para não enfrentar manifestações e protestos contra a sua visita, saiba que essas manifestações e protestos ocorrerão em todo o país. E serão protestos contra si e aquilo que representa. A sua comitiva poderá tentar ignorar-nos. A Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu podem tentar ignorar-nos. Mas somos cada vez mais, senhora Merkel. Aqui e em todos os países. As nossas manifestações e protestos terão cada vez mais força. Cada vez conhecemos melhor a realidade. As histórias que nos contavam nunca bateram certo e agora sabemos serem mentiras descaradas.

Acordámos, senhora Merkel. Seja mal-vinda a Portugal.

Ver blog

Há indícios de corrupção no processo de implementação da TDT em Portugal



A tese de Doutoramento de Sergio Denicoli (Universidade do Minho) acaba de ser integralmente publicada pelo Centro de Investigação em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho:

Este estudo doutoral analisa o processo de implementação da Televisão Digital Terrestre (TDT) em Portugal, desde o início da sua introdução definitiva, a partir de 2007, até o fim das transmissões dos sinais analógicos, em 2012.

O Investigador Sergio Denicoli, autor do blogue TV DIGITAL, verificou “a fundo um processo que sacrificou sobretudo os mais pobres e os mais idosos.” Segundo a comunicação social a investigação terá levado a PT e a ANACOM a avançarem com uma acusação em tribunal contra Sergio Denicoli, que continua a dizer que não sabe de nada: "Li hoje reportagens que dizem que a PT já impetrou uma ação judicial, no entanto, até o momento, não recebi qualquer intimação". O presidente da empresa refere, segundo a agência Lusa, que eu acusei o grupo de corrupção, o que não é verdade.

Sergio Denicoli disse e reafirma que "há indícios de corrupção no processo de implementação da TDT em Portugal e que isto deve ser apurado".

Neste processo há duas coisas a considerar: a questão da TDT e a acusação da PT, que ao levar isto para tribunal, está a colocar em causa o direito e a liberdade de investigar e de estudar.

Sobre o processo movido contra o Sergio Denicoli, pensamos que faz todo o sentido assinar a petição “Pela Liberdade de Investigação Académica”.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Não passará!



No próximo dia 31, perante a iminência da aprovação de um Orçamento de Estado que é não só injusto mas garantidamente destruidor da economia e da sociedade portuguesa, respondemos ao apelo: Que Se Lixe a Troika! Este Orçamento Não Passará! Às 15h frente ao Parlamento começará uma concentração que se prolongará durante toda a tarde, com convocatórias do Que Se Lixe a Troika, da CGTP e de muitos outros grupos. A sociedade junta-se à volta de uma ideia muito simples: não aceitar o voto favorável a um documento que põe em causa a sua própria coesão e existência. Não passará!

Na continuação das manifestações de 15 de Setembro, de 21 de Setembro, de 29 de Setembro, da Marcha contra o Desemprego, da Manifestação Cultural de 13 de Outubro, na próxima 4ª feira será um novo dia de rua. Cada vez temos menos medo da rua e cada vez mais nos sentimos bem nela, porque é na rua que está a nossa força. Porque é na rua que as pessoas podem recuperar o seu poder. A sua intervenção. A sua participação. Após longas análises do documento que estará a ser votado na generalidade no próximo dia 31, a conclusão é feita a uma só voz, da esquerda à direita: é um documento de destruição do Estado Social, de ataque aos mais fracos, aos desempregados, aos precários, aos funcionários públicos, aos trabalhadores do privado, aos reformados, à Saúde, à Educação, à Cultura, ao Ambiente. É um ataque ao país e à sociedade que nele habita. E contra esse ataque só a sociedade pode responder colectivamente. E o governo de coligação treme. E o CDS já tem necessidade de ameaçar os seus deputados se votarem contra. Este governo-zombie treme, balança e já só a troika o sustenta.

Tal como em Espanha se vêm há muito sucedendo as manifestações contra o orçamento de estado, também Portugal se junta a este processo. Cada vez mais estreitamos ligações e cada vez mais se entende a luta comum, que culminará na greve geral de 14 de Novembro. E se em Espanha já se canta Grândola Vila Morena nas manifestações, em Portugal no dia 31 a partir das 15h gritar-se-á: "Não Passará! Não Passará!"

Em Coimbra haverá um protesto às 19h na Praça da República e organizam-se autocarros vindos das Caldas da Rainha e do Porto com destino a Lisboa para participar no protesto.

Retirado daqui

sábado, 27 de outubro de 2012

Contra o Orçamento de Estado terrorista!

"Este mural foi realizado sem ajuda externa", nas Amoreiras - Lisboa, pelos artistas Nomen, Slap e Kurtz. A mensagem que acompanha o mural é a seguinte: "Quanto mais tempo querem ficar a assistir a este show. A 'nossa' dívida continua a aumentar!"


PETIÇÃO OE 2013

«Exmo. Senhor Presidente da República Exmos. Senhores Deputados da Assembleia da República

Os signatários apelam à vossa responsabilidade política e institucional perante o país e perante todos os cidadãos, para que seja rejeitada a proposta de Orçamento de Estado para 2013 apresentada pelo Governo. A sua aprovação constituiria certamente um mal maior para o país e os portugueses comparativamente com as consequências da sua rejeição.

Esta proposta de OE, já contestada pela opinião pública e pela grande maioria dos especialistas, significa o prosseguimento e agravamento do caminho para uma austeridade ainda mais recessiva, com mais desemprego, mais destruição da economia, mais empobrecimento, mais desigualdade social e menos justiça fiscal. Em nome dos credores, rouba o futuro e a esperança ao país e aos portugueses. Ofende princípios constitucionais relevantes, designadamente o princípio da confiança (dimensão importante do princípio democrático), os direitos do trabalho, os direitos sociais e a progressividade e equidade fiscais.

Aos Deputados, apelamos para que rejeitem esta proposta governamental de Orçamento de Estado, assumindo plenamente a vossa condição de representantes eleitos do povo e de todo o País, que é superior a quaisquer outras fidelidades ou compromissos; Ao Presidente da República, na qualidade de supremo representante da República, garante da independência nacional, da unidade do Estado e do regular funcionamento das instituições democráticas, obrigado a respeitar e a fazer cumprir a Constituição, apelamos a que exerça o seu direito de veto sobre este Orçamento de Estado, no caso de ele ter aprovação parlamentar ou, no mínimo, que o submeta, no exercício das suas competências, à fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional.»

Concorda?

ASSINAR

Carta de enfermeiro que emigra para Inglaterra: "Sinto-me expulso do meu país"



«Carta de despedida à Presidência da República

Excelência,

Não me conhece, mas eu conheço-o e, por isso, espero que não se importe que lhe dê alguns dados biográficos. Chamo-me Pedro Miguel, tenho 22 anos, sou um recém-licenciado da Escola Superior de Enfermagem do Porto. Nasci no dia 31 de Julho de 1990 na freguesia de Miragaia. Cresci em Alijó com os meus avós paternos, brinquei na rua e frequentava a creche da Vila. Outras vezes acompanhava a minha avó e o meu avô quando estes iam trabalhar para o Meiral, um terreno de árvores de fruto, vinha (como a maioria daquela zona), entre outros. Aprendi a dizer “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” quando me cruzava na rua com terceiros. Aprendi que a vida se conquista com trabalho e dedicação. Aprendi, ou melhor dizendo, ficou em mim a génesis da ideia de que o valor de um homem reside no poder e força das suas convicções, no trato que dá aos seus iguais, no respeito pelo que o rodeia.

Voltei para a cidade onde continuei o meu percurso: andei numa creche em Aldoar, freguesia do Porto e no Patronato de Santa Teresinha; frequentei a escola João de Deus durante os primeiros 4 anos de escolaridade, o Grande Colégio Universal até ao 10º ano e a Escola Secundária João Gonçalves Zarco nos dois anos de ensino secundário que restam. Em 2008 candidatei-me e fui aceite na Escola Superior de Enfermagem do Porto, como referi, tendo terminado o meu curso em 2012 com a classificação de Bom. Nunca reprovei nenhum ano. No ensino superior conclui todas as unidades curriculares sem “deixar nenhuma cadeira para trás” como se costuma dizer.

Durante estes 20 anos em que vivi no Grande Porto, cresci em tamanho, em sabedoria e em graça. Fui educado por uma freira, a irmã Celeste, da qual ainda me recordo de a ver tirar o véu e ficar surpreendido por ela ter cabelo; tive professores que me ensinaram a ver o mundo (nem todos bons, mas alguns dignos de serem apelidados de Professores, assim mesmo com P maiúsculo); tive catequistas que, mais do que religião, me ensinaram muito sobre amizade, amor, convivência, sobre a vida no geral; tive a minha família que me acompanhou e me fez; tive amigos que partilharam muito, alguns segredos, algumas loucuras próprias dos anos em flor; tive Praxe, aquilo que tanta polémica dá, não tendo uma única queixa da mesma, discutindo Praxe várias vezes com diversos professores e outras pessoas, e posso afirmar ter sido ela que me fez crescer muito, perceber muita coisa diferente, conviver com outras realidades, ter tirado da minha boca para poder oferecer um lanche a um colega que não tinha que comer nesse dia. Tudo isto me engrandeceu o espírito. E cresci, tornei-me um cidadão que, não sendo perfeito, luto pelas coisas em que eu acredito, persigo objetivos e almejo, como todos os demais, a felicidade, a presença de um propósito em existirmos.

Sou exigente comigo mesmo, em ser cada vez melhor, em ter um lugar no mundo, poder dizer “eu existo, eu marquei o mundo com os meus atos”.

Pergunta agora o senhor por que razão estarei eu a contar-lhe isto. Eu respondo-lhe: quero despedir-me de si. Em menos de 48 horas estarei a embarcar para o Reino Unido numa viagem só de ida. É curioso, creio eu, porque a minha família (inclusive o meu pai) foi emigrante em França (onde ainda conservo parte da minha família) e agora também eu o sou. Os motivos são outros, claro, mas o objetivo é mesmo: trabalhar, ter dinheiro, ter um futuro. Lamento não poder dar ao meu país o que ele me deu. Junto comigo levo mais 24 pessoas de vários pontos do país, de várias escolas de Enfermagem. Somos dos melhores do mundo, sabia? E não somos reconhecidos, não somos contratados, não somos respeitados. O respeito foi uma das palavras que mais habituado cresci a ouvir. A par dessa também a responsabilidade pelos meus atos, o assumir da consequência, boa ou má (não me considero, volto a dizer, perfeito).

Esse assumir de uma consequência, a pro-atividade para fazer mais, o pensar, ter uma perspetiva sobre as coisas, é algo que falta em Portugal. Considero ridículas estas últimas semanas. Não entendo as manifestações que se fazem que não sejam pacíficas. Não sou a favor das multidões em protesto com caras tapadas (se estão lá, deem a cara pelo que lutam), daqueles que batem em polícias e afins. Mais, a culpa do país estar como está não é sua, nem dos sucessivos governos rosas e laranjas com um azul à mistura: a culpa é de todos. Porquê? Porque vivemos com uma Assembleia que pretende ser representativa, existindo, por isso, eleições. A culpa é nossa que vos pusemos nesse pódio onde não merecem estar. Contudo o povo cansou-se da ausência de alternativas, da austeridade, do desemprego, das taxas, dos impostos. E pedem um novo Abril. Para quê? O Abril somos nós, a liberdade é nossa. E é essa liberdade que nos permite sair à rua, que me permite escrever estas linhas. O que nós precisamos é que se recorde que Abril existiu para ser o povo quem “mais ordena”. E a precisarmos de algo, precisamos que nos seja relembrado as nossas funções, os nossos direitos, mas, sobretudo, principalmente, com muita ênfase, os nossos deveres.

Porém, irei partir. Dia 18 de Outubro levarei um cachecol de Portugal ao pescoço e uma bandeira na bagagem de mão. Levarei a Pátria para outra Pátria, levarei a excelência do que todas as pessoas me deram para outro país. Mostrarei o que sou, conquistarei mais. Mas não me esquecerei nunca do que deixei cá. Nunca. Deixo amigos, deixo a minha família. Como posso explicar à minha sobrinha que tem um ano que eu a amo, mas que não posso estar junto dela? Como posso justificar a minha ausência? Como posso dizer adeus aos meus avós, aos meus tios, ao meu pai? Eles criaram, fizeram-me um Homem. Sou sem dúvida um privilegiado. Ainda consigo ter dinheiro para emigrar, o que não é para todos. Sou educado, tenho objetivos, tenho valores. Sou um privilegiado.

E é por isso que lhe faço um último pedido. Por favor, não crie um imposto sobre as lágrimas e muito menos sobre a saudade. Permita-me chorar, odiar este país por minutos que sejam, por não me permitir viver no meu país, trabalhar no meu país, envelhecer no meu país. Permita-me sentir falta do cheiro a mar, do sol, da comida, dos campos da minha aldeia. Permita-me, sim? E verá que nos meus olhos haverá saudade e a esperança de um dia aqui voltar, voltar à minha terra. Voltarei com mágoa, mas sem ressentimentos, ao país que, lá bem no fundo, me expulsou dele mesmo.

Não pretendo que me responda, sinceramente. Sei que ser político obriga a ser politicamente correto, que me desejará boa sorte, felicidades. Prefiro ouvir isso de quem o diz com uma lágrima no coração, com o desejo ardente de que de facto essa sorte exista no meu caminho.

Cumprimentos,

Pedro Marques»

Original no blog de Pedro Marques: anastomoses